Num bairro da Amadora, aconteceu um milagre

A história de Ilda Vaz, empregada de limpeza que um dia, lavada em lágrimas e humilhada, começou a compor música para fugir à tristeza. Vingou-se de todo o sofrimento, de toda a perversidade.

Num bairro da Amadora, aconteceu um milagre

A história de Ilda Vaz, empregada de limpeza que um dia, lavada em lágrimas e humilhada, começou a compor música para fugir à tristeza. Vingou-se de todo o sofrimento, de toda a perversidade.

1.

No bairro da Boba, na Amadora, todos os prédios são de habitação social.

Foi aí que nasceu um dos mais extraordinários grupos de batucadeiras.

E tudo aconteceu depois de Ilda Vaz, empregada de limpeza, ter sido humilhada numa farmácia onde trabalhava.

2.

Estava a limpar quando entrou um homem com um cão preto. Olhou-a e sem levantar a voz, gélido e guloso de ódio, pediu à patroa: “Olha, tira essa preta daí porque o meu cão não gosta de escarumbas”.

Dona Ilda ficou em silêncio, como se não fosse nada com ela, mas a patroa mandou-a para baixo… “vai limpar a arrecadação”.

Ilda chorou todo o caminho de regresso.

Nesse dia não fez o jantar…

…nesse dia, sentada na cozinha, compôs e cantou para escorraçar maus pensamentos.

E depois foi bater de porta em porta, falar com amigas, organizar um grupo que batucasse para que a felicidade fosse possível.

3.

Assim que nasceram As Batucadeiras Bandeirinha.

Da tristeza profunda de uma mulher que aprendeu a cantar a ouvir a mãe e o pai.

A Dona Ilda que, aos três anos, foi com eles e os irmãos, num barco de escravos que abandonou a cidade da Praia com destino a São Tomé, onde os esperava um capataz de uma roça de cacau.

Na viagem, nasceu um bebé, mas a mãe morreu durante o parto improvisado. Atiraram-na ao mar e entregaram a criança à primeira que se abeirou.

4.

No chão frio da roça, com um saco como cama, Ilda ficava com os três irmãos durante todo o dia.

Dois mais novos, de colo. E o outro, um pouco mais velho.

Numa manhã, distraiu-se e foi brincar para a porta do feitor. A mulher deste, incrédula pelo desplante da miúda, gritou-lhe à janela:

“Sua preta, sai daí, vai para a sanzala, canalha, suja, preta imunda”.

5.

Ilda vive em Portugal desde 1996.

Compõe, junta o seu grupo para ensaiar nas noites depois da jorna, fazem espetáculos em todo o mundo.

Madonna adorava-as.

Dona Ilda comove-se com isso, mas muito mais pela prova da existência de Deus.

Afinal, a sua estória fá-la recuar aos anos de infância quando ouvia os pais a cantar e a batucar – lembra-se de ter pensado que eram artistas.

Lembra-se também de ter imaginado que um dia seria artista para os honrar o melhor que pudesse e conseguisse.

Que um dia deixaria de ser escrava.

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