A última desgraçada do Estado Novo morreu há uns dias sem nunca ter sido livre

Chamava-se Catarina e foi condenada a um exílio forçado no lugar dos desgraçados. Sem pai ou mãe e com um bebé na barriga, entrou na Mitra em 1954 e morreu há uns dias no único lugar que conheceu.

A última desgraçada do Estado Novo morreu há uns dias sem nunca ter sido livre

Chamava-se Catarina e foi condenada a um exílio forçado no lugar dos desgraçados. Sem pai ou mãe e com um bebé na barriga, entrou na Mitra em 1954 e morreu há uns dias no único lugar que conheceu.

1.

A Mitra de Lisboa escondia os homens, as mulheres e as crianças que ninguém reclamava.

Gente sem família que vagueava pelas ruas, deficientes, prostitutas, bêbados, doentes mentais e bebés abandonados que cresciam ali.

Na Mitra quando se entrava já não se saia.

Rapavam-lhes o cabelo, vestiam-lhes uma farda e ninguém mais falava disso.

Era uma cidade pequena dentro da cidade grande – ali viviam, ali morriam sem nunca serem vistos.

Para o país eles e elas não existiam.

2.

No Poço do Bispo fica o lugar dos perdidos.

O lugar dos impossíveis de encontrar, o fim da linha.

O lugar de Catarina Maria que aos 23 anos ali foi parar.

Tinha défice cognitivo e numa reportagem do Expresso lemos o relatório que a acompanhava quando entrou na Mitra.

“Aleijada, pobre e anormal”.

Estava grávida de um irmão que a violou no Cercal do Alentejo.

O bebé saiu-lhe da barriga, mas não sobreviveu.

Ela sim, Catarina Maria, registada sem apelidos, sem conhecimento de quem era o pai ou a mãe, sozinha com um bebé no ventre.

3.

Entrou naquela prisão de indigentes em 1954 e morreu neste fevereiro de 2025.

Esteve 71 anos na Mitra sem nunca sair para a cidade – de vez em quando viam-na com a mão na barriga como se ainda estivesse grávida de um bebé que não chegou a ver, de vez em quando

viam-na pensativa com alguma coisa ou fixada numa boneca de pano que alguém lhe terá oferecido numa outra vida.

Como nos conta o excelente jornalista Ricardo Marques tinha o número 14 378 ao pescoço e era uma bem-disposta.

A partir de certa altura, já depois do 25 de Abril, ofereceram-lhe carta branca para ir beber um café e fumar um cigarro.

Todos gostavam da Catarina que nunca conheceu os pais.

A maluquinha da aldeia como a chamavam naquele Alentejo de planícies a perder de vista.

Maltratada pelo irmão que era a única família que conheceu, encontrada pela PSP com a barriga grande e perdida sem ter para onde ir.

Foi para o fim da linha.

Talvez no caminho do Alentejo para a Mitra tenha perguntado aos polícias para onde ia. Talvez os polícias lhe tenham dito “Lisboa”, cidade que não viria a conhecer fora dos portões do lugar que foi seu até ao fim.

Até à última bica.

E ao último cigarro que lhe soube pela vida.

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