1.
Estive no Lar da Misericórdia de Miranda do Douro.
Gosto de ir aos sítios, visitar as pessoas, ouvir as suas estórias, descansar do que é virtual, do que me desumaniza.
Maravilhoso o trabalho dos técnicos e voluntários na generalidade dos lugares onde os nossos mais velhos suportam os dias.
Só puxamos as coisas quando alguma coisa está mal, quando alguém foi maltratado, quando nos indignamos, mas no resto dos dias, na maioria deles, há mulheres e homens que se sacrificam pelo bem-estar dos que podiam ser seus pais, mães ou avós.
2.
Em Miranda, terra do mirandês e dos pauliteiros, lugar mítico da resistência portuguesa contra Castela, os que estão no lar são mesmo os mais velhos entre os velhos ou os que, por motivo de doença ou desgraça, deixaram de poder trabalhar.
Conheci Cremilde.
Uma mulher da minha idade, mas que um mal de criança tornou dependente para sempre.
3.
É desarmante a Cremilde.
Ri e faz de conta que se envergonha.
Gosta de falar, de contar da mãe e do seu azar.
Também gosta de elogiar as que a ajudam quando vem a febre, quando as pernas doem ou não tem força ou coragem para se levantar.
Fez-me perguntas da rádio.
E animei-me quando arregalou o olhar por eu falar na Antena 1.
4.
Acreditei que a sua lágrima era para mim.
Preparei-me para lhe responder com um abraço ou algo que a confortasse.
Cremilde contou que a Antena 1 fazia parte da sua vida, das suas rotinas.
Acordava todos os dias de madrugada, muito antes do Sol nascer, para lavar a cara e estar desperta para não perder um segundo do que tinha para lhe contar o José Candeias, um dos seus melhores amigos.
5.
Não por o conhecer, mas por acreditar que José fala para ela, só para ela.
E eu confirmei.
“Cremilde, tenho a certeza absoluta de que é verdade o que me contou. Ele fala apenas para si”
No princípio de todas as manhãs, de todos os futuros, de todos os sonhos, José Candeias fala para ela.
É que Cremilde descobriu o segredo da rádio.
A rádio é isso.
É isto.
E um dia, quando for grande, quero ser como José Candeias e ser amado pela Cremilde de Miranda do Douro, a que nasceu para ser uma criança eterna.
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