1.
Quando estava cansado ou não lhe apetecia aturar as pessoas, desligava o aparelho dos ouvidos.
Deixava de ouvir e fazia um sorriso ausente que desmobilizava os chatos de serviço.
Ri-me muito quando mo contou.
2.
Morreu faz hoje 15 dias.
Deixou-nos os livros, as crónicas, as respostas que nos inquietavam ou surpreendiam, as polémicas, as tardes em que nos aparecia em sessões de autógrafos com leitores que não se
importavam de esperar pelo seu olhar azul, por uma palavra, por uma assombração.
António Lobo Antunes já não precisa de ligar o aparelho para ouvir os pássaros.
Já não pode fugir dos cus de Judas.
Já sabe se há elefantes e memória no lugar onde agora escreve.
Já aprendeu o caminho para o sítio onde se cantam fados alexandrinos.
Já voltou a ler o tratado das paixões da alma.
Já ouviu os tangos de Gardel.
E já voltou a abraçar os amigos, o José Cardoso Pires, o Eduardo Lourenço, o Ernesto Melo Antunes.
Mas também a sua Maria José, a Zezinha a quem escreveu as cartas de amor quando tinha mais futuro do que passado.
Os irmãos João e Pedro.
E, quem sabe, talvez tenha beijado a mãe e abraçado o pai – talvez eles já saibam abraçar e tocar e dizer que ele pode tornar a ser uma criança ou, melhor ainda, que pode libertar-se de todo o alfabeto, de todas as amarras, de todas as obrigações.
3.
Morreu António Lobo Antunes.
Tinha 83 anos.
Escrevia à mão.
As letras que desenhava eram pequeninas, como se fossem o resultado de um sonho ou de uma visão de dentro.
Adorava escrever a meio da noite, nas horas em que já não estava a dormir, mas ainda não estava acordado.
Nessas madrugadas, as frases saíam-lhe como um vómito ou um milagre, como se a sua escrita fosse autónoma da caneta.
4.
Não fomos amigos, mas estivemos próximos.
Podíamos ter sido, mas não fui capaz de estar à altura.
É o que é.
Sem culpas, na vida perdemos oportunidades.
Recordo o último encontro, ainda o Monumental tinha salas de cinema, há três ou quatro anos, não sei.
Estava com um casaco de cabedal e na companhia da sua mulher, o derradeiro amor.
“Telefona-me, Luís”.
Foi isso que disse.
“Telefona-me, Luís”.
E eu respondi-lhe que sim, mas não telefonei.
Entro agora nos livros.
Sem medo das noites escuras.
Da Babilónia.
Das pedras.
Dos inquisidores.
Da casa em chamas.
Do tamanho do mundo.
Sem medo de ti, António.
Sem medo de ti.
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