1.
Há pessoas que se estão sempre a apaixonar.
Curiosamente, sofrem mais do que aquelas que raramente ou nunca se apaixonam.
Os “pinga-amor” têm mais graça.
Os seus olhos estão constantemente despertos, animados e disponíveis.
Cada saída, mesmo para ir ao pão ou comprar meias é uma oportunidade para serem despertos e arrebatados.
Mas depois, entre paixões que raramente dão em alguma coisa, batem com a cabeça nas paredes pela dificuldade de compreenderem a razão para nunca terem sorte.
2.
Não é uma crítica à paixão.
É melhor tê-la em demasia do que viver como um burocrata dos afetos.
Um amante ou uma amante só o são quando perdem literalmente a cabeça.
Quando arriscam e se expõem.
Se tal não acontece não são amantes, têm apenas uma relação que para os dois (ou um dos dois) é apenas de superfície, de corpo sem compromisso, carne.
Para um verdadeiro amante cada encontro tem de ser apaixonado e nunca existe prudência na paixão, esta é imprevidente, demencial e caótica.
Quando se tem muito cuidadinho, não é paixão, é um rio de águas paradas.
3.
Mas desviei-me dos “pinga-amor”.
Dos viciados em dopamina.
Dos que correm em perpétua fuga da solidão.
Dos que precisam de estar sempre a conquistar, a ser validados, amados, encantados.
Dos que se desiludem rapidamente com a primeira dúvida, a primeira desilusão ou na próxima oportunidade que lhes aparece de conhecer a próxima pessoa.
Acumulam hipóteses como os amantes de viagens juntam milhas de voo.
É triste e muito bonito.
É desamparo, mas também esperança.
É loucura, mas também a única hipótese de continuarem a levantar-se todos os dias.
É amor, mas também absoluta impossibilidade de amar.
O meu abraço forte a todos os que estão na luta.
Numa caça que não acaba por a fome ser perpétua e as noites demasiado longas no seu feroz e tenebroso silêncio.
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