Bumba na Fofinha

Chama-se Mariana Cabral, mas o país conhece-a como “Bumba na Fofinha”. É uma estrela que vive muito mais da sombra do que das luzes, mas da sua imperfeição fez nascer um mundo novo.

Bumba na Fofinha

Chama-se Mariana Cabral, mas o país conhece-a como “Bumba na Fofinha”. É uma estrela que vive muito mais da sombra do que das luzes, mas da sua imperfeição fez nascer um mundo novo.

1.

Já a vi a ser abordada na rua.

És a “Bumba na Fofinha”, não és?

Era a Bumba na Fofinha, mas assumo que, muito estupidamente, fiquei incomodado com o modo tão profano como a Mariana foi tratada pela sua seguidora.

2.

Gosto do que nela é menos óbvio.

Gosto do seu humor.

Gosto da imperfeição, do desalinho, de uma verdade que sobrevive à máscara que usa na personagem que construiu.

Gosto dos medos, das falhas, da confissão de que a vida não é sempre boa, que ser mãe não é um mar calmo, que a loucura é uma fronteira sempre próxima.

Faz lembrar Midge, a Maravilhosa Mrs. Maisel.

O ritmo, a autenticidade, o mais banal quotidiano como arma do humor, as crises domésticas, uma certa tristeza latente…

…que na Mariana é muitíssimo mais óbvia.

3.

Vi-a no palco num espetáculo a que chamou Sombra.

Impressionante o controlo do ritmo.

E a sua fragilidade, forte.

Ou a sua coragem, amedrontada.

4.

Mariana Cabral conquistou o seu espaço sem favores de ninguém.

Não teve padrinhos ou madrinhas.

Combateu pelo espaço e provou o quanto ser filha mais nova de vários irmãos é uma vantagem competitiva.

Fez-se à vida, trabalhou num call center, foi jornalista numa publicação gratuita e depois numa agência de publicidade.

Até que há uns dez anos começou a gravar vídeos onde transformou a sua imperfeição – e a nossa – num exercício ideológico – assumindo-se como contracorrente de um tempo que privilegia os perfeitinhos, os que não falham ou assumem que falham, os vencedores.

Obrigado, Mariana a quem jamais conseguirei chamar, “Bumba na Fofinha”.

Ouça o “Postal do Dia” em Apple Podcasts, Spotify e RTP Play.