Deixámos de mentir

Antes mostrávamos a intimidade nas redes para escondermos o que verdadeiramente éramos. Hoje mostramos aquilo que somos. Deixámos de mentir e o mundo ficou mais perigoso.

Deixámos de mentir

Antes mostrávamos a intimidade nas redes para escondermos o que verdadeiramente éramos. Hoje mostramos aquilo que somos. Deixámos de mentir e o mundo ficou mais perigoso.


1.

A revolução tecnológica está em curso e não há uma única pessoa, mesmo o mais informado dos seres humanos, que consiga antecipar a maneira como viveremos no futuro.

Tudo será diferente.

O amor.

A família.

O dinheiro.

O poder.

A guerra.

Deus e as religiões.

A ética.

O trabalho.

2.

Há meio milhão de exemplos interessantes em relação ao que nos estamos a tornar.

Escolho hoje um que parece ter pouca importância.

O da exposição.

O da forma como milhões se escancaram ao mundo – o que almoçam e jantam, por onde andam, o que vestem, como se maquilham, com quem estão, em que carros se passeiam.

3.

Tudo isto não é novo.

A motivação passava por esconder o que se era com aquilo que gostaríamos de ser.

Ao mostrarmos uma vida boa, escondíamos a que tínhamos.

Iludíamos o mundo com uma intimidade que não correspondia à verdade.

Esse tempo já passou.

E não é uma boa notícia pois ainda teremos saudades dessa pré-história da exposição.

Saudades de quando mentíamos para esconder a verdade.

4.

Hoje, é diferente.

Cada vez mais pessoas deixaram de mentir, cada vez mais seres humanos expõem a sua verdade nua e crua.

Cada vez mais gente se transformou na própria máscara.

Cada vez mais homens e mulheres, e jovens e até crianças, são só o que mostram nas redes sociais.

As partilhas ao longo do dia são o essencial das suas vidas.

Já não há nada a esconder.

Por isso, desabafamos sobre a nossa intimidade.

Choramos ao vivo.

Revoltamo-nos ao vivo.

Insultamos, ameaçamos, falamos das traições que fazemos e nos fazem, partilhamos sobre doenças, exames, fotografamo-nos no hospital com sondas na garganta ou arrastadeiras.

Deixámos de nos expor para esconder.

Agora expomo-nos para nos mostrar na plenitude.

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