1.
A morte é uma parte importante da vida.
Acredito que o nosso ato derradeiro define o que fomos, o modo como nos preparámos, a imagem que deixamos para quem fica. Admiro as pessoas que partem tranquilas.
Sem medo.
Serenas.
Em paz.
A prova de que tudo correu bem.
2.
Visitei o Papa Francisco em Roma.
Na antiga arrecadação de candelabros em Santa Maria Maior, entre duas capelas fora do Vaticano, encontrei-o no seu caixão sem ouro ou pedras preciosas.
Um caixão pobre.
Um voto perpétuo de pobreza com um relevo em latão que anuncia o nome para que não nos esqueçamos quando vier o esquecimento.
FRANCISCUS
Assim está escrito.
3.
É público que era o lugar onde mais gostava de se ajoelhar, junto a uma imagem milenar de Nossa Senhora.
Em Santa Maria Maior quis ficar.
Fora do Vaticano.
Junto dos humildes, distante dos imperadores.
Sem ouro, sem preciosidades, sem distância ou ostentação.
Admiro as pessoas que partem tranquilas, mas também as que são coerentes em todos os momentos da vida.
Como ele.
4.
Que quis escolher os passos do seu lugar eterno.
Descansar num caixão que agora é visitado por peregrinos da esperança.
Gente que lhe agradece.
Como eu lhe agradeci.
A ele e ao outro Papa que ali está, o motivo que não confessou para a sua escolha.
Chamava-se Clemente IX e foi um Francisco antes de Francisco.
Detestava a sumptuosidade.
Recebia os pobres no Palácio.
Confessava os peregrinos duas vezes por semana e era da cultura, compunha óperas e escrevia poemas.
Retirou aos aristocratas o monopólio da venda de cereais, cortou impostos sobre as sementes e distribuiu comida aos pobres.
Os dois estão à distância de dez ou quinze metros.
Celebrar um é celebrar o outro.
Irmãos gémeos separados por 350 anos.
Inquilinos de um lugar em que a morte é vida.
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