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1.
Envelhecer não é apenas aproximarmo-nos do dia que será mais curto do que todos os outros, mas é também o de termos vivido mais coisas, o de termos acumulado mais memórias.
Certamente que chegar a velho significa dores inesperadas, articulações em greve e bicos de papagaio, mas é também a possibilidade de ter menos pressa, de procurar a profundidade, de redescobrir a lentidão.
2.
Sim, sei bem.
Quando vivemos mais anos transformamo-nos num pequeno ou grande cemitério privado, somamos mortes de familiares, de amigos, até de inimigos de quem ganhamos saudades, mas é também o tempo de sermos avós e pais de uma outra maneira.
Envelhecer é esvaziar os músculos, ganhar o medo de atravessar a rua, de cair na banheira, de ser internado, mas é também discutir menos, sacrificar a maluquice da ambição pelo bem-estar
Moura a 50.
O caminho para lá chegar é difícil e a estrada única.
3.
Ser velho é deixar de ter todas as possibilidades em aberto, é nunca mais nos olharem na rua por sermos bonitos ou desejáveis, mas é também o apaziguamento, a diminuição do peso e da responsabilidade, a descoberta de uma outra Beleza, de uma outra forma de desejar.
Não esqueço que é terrível os olhos ficarem com lágrimas pelo esforço de ler, as letras parecerem mais pequeninas, mas ser velho é também a certeza absoluta de que a pergunta é mais importante do que a resposta.
4.
Ser velho é ter mais passado do que futuro, mas é também o regresso à infância, as dúvidas, os medos, a necessidade de amparo, uma candura que achávamos ter perdido para sempre.
Envelhecer é tornarmo-nos vulneráveis, descartáveis, dependentes, mas é também um combate que podemos ganhar, o combate mais importante de todos, o da consciência de que vivemos até ao último dia, o da certeza de que deixamos nos que amámos o caminho para serem o melhor que conseguirem.
Ser velho pode ser terrível. Um abismo. Um buraco de que não conseguimos sair. Podemos estar sozinhos, abandonados, doentes, prostrados. Mas ainda assim, é possível oferecer uma possibilidade à vida e a nós próprios.
Porque envelhecer é também um ato de provocação e resistência.
Quero ser velho. Viver as dores e os medos, mas de olhos abertos ao encantamento e à surpresa.
Até amanhã.
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