Gonçalo Ribeiro Telles

Morreu há quase seis anos, mas continua vivo. Ninguém foi como Gonçalo Ribeiro Telles: cosmopolita e da terra, monárquico e republicano, privilegiado e do povo, um verdadeiro senhor.

Gonçalo Ribeiro Telles

Morreu há quase seis anos, mas continua vivo. Ninguém foi como Gonçalo Ribeiro Telles: cosmopolita e da terra, monárquico e republicano, privilegiado e do povo, um verdadeiro senhor.

1.

Estive uma única vez, com Gonçalo Ribeiro Telles, mas faz-me falta.

Sinto a ausência de algumas pessoas com quem não tive nenhuma afinidade – sinto até mais a falta de alguns que não conheci do que de outros com quem privei.

Em alguns casos não é fácil de explicar, mas com Gonçalo Ribeiro Telles é simples de compreender.

2.

Morreu vai para seis anos, já era velho, faltavam-lhe uns meses para completar um século.

Morreu, mas não morreu.

Torno a ele quando passeio nos jardins da Gulbenkian ou nos corredores verdes da cidade – que idealizou a partir dos seus esquissos, sonhos e capacidade de trabalho.

Mas também regresso a ele quando passo por lugares mal-amanhados, quando nas cidades se amonta betão e indiferença, quando caminho entre especuladores imobiliários e ausência de futuro.

3.

São raras as pessoas que ficam assim, vivas depois da morte.

Gonçalo foi tanta coisa, mas tudo o que foi nos faz falta.

Era monárquico, mas um senhor.

Adorava conversar com quem não pensava como ele.

Foi ministro com a pasta da Qualidade de Vida, foi com ele que nasceram as reservas agrícolas e ecológicas mais os planos diretores municipais.

4.

Foi um ecologista antes de alguém o ser.

Falou da preservação do planeta antes de alguém com isso se preocupar.

Era um aristocrata que acreditava nas pessoas.

Um cosmopolita que defendia o campo.

Um católico progressista.

Um homem que se apaixonou pela República sem nunca atraiçoar a Monarquia.

5.

Como não sentir a falta do tanto que nos falta?

Num tempo como este, de maledicência, de especulação, de desumanidade, de amoralidade, como não sentir a falta de um homem assim?

Bonito.

Bondoso.

Corajoso.

Idealista.

Um senhor.

Elegante.

Cavalheiro.

Cerimonioso.

Genial.

Cada jardim que vemos na cidade tem a sua marca.

Cada plantação, cada árvore, cada bocadinho de vida é uma homenagem que a natureza lhe faz…

…se me concentrar consigo até escutar o vento a soprar o seu nome.

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