1.
Estive uma única vez, com Gonçalo Ribeiro Telles, mas faz-me falta.
Sinto a ausência de algumas pessoas com quem não tive nenhuma afinidade – sinto até mais a falta de alguns que não conheci do que de outros com quem privei.
Em alguns casos não é fácil de explicar, mas com Gonçalo Ribeiro Telles é simples de compreender.
2.
Morreu vai para seis anos, já era velho, faltavam-lhe uns meses para completar um século.
Morreu, mas não morreu.
Torno a ele quando passeio nos jardins da Gulbenkian ou nos corredores verdes da cidade – que idealizou a partir dos seus esquissos, sonhos e capacidade de trabalho.
Mas também regresso a ele quando passo por lugares mal-amanhados, quando nas cidades se amonta betão e indiferença, quando caminho entre especuladores imobiliários e ausência de futuro.
3.
São raras as pessoas que ficam assim, vivas depois da morte.
Gonçalo foi tanta coisa, mas tudo o que foi nos faz falta.
Era monárquico, mas um senhor.
Adorava conversar com quem não pensava como ele.
Foi ministro com a pasta da Qualidade de Vida, foi com ele que nasceram as reservas agrícolas e ecológicas mais os planos diretores municipais.
4.
Foi um ecologista antes de alguém o ser.
Falou da preservação do planeta antes de alguém com isso se preocupar.
Era um aristocrata que acreditava nas pessoas.
Um cosmopolita que defendia o campo.
Um católico progressista.
Um homem que se apaixonou pela República sem nunca atraiçoar a Monarquia.
5.
Como não sentir a falta do tanto que nos falta?
Num tempo como este, de maledicência, de especulação, de desumanidade, de amoralidade, como não sentir a falta de um homem assim?
Bonito.
Bondoso.
Corajoso.
Idealista.
Um senhor.
Elegante.
Cavalheiro.
Cerimonioso.
Genial.
Cada jardim que vemos na cidade tem a sua marca.
Cada plantação, cada árvore, cada bocadinho de vida é uma homenagem que a natureza lhe faz…
…se me concentrar consigo até escutar o vento a soprar o seu nome.
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