1.
Um dia acredito que o palco lhe fará justiça.
Porque a sua vida podia ser encenada e aplaudida em teatros esgotados na expetativa de ver outra vez a menina nascida nos bastidores de uma peça no Parque Mayer.
Uma menina, filha de uma costureira de guarda-roupa, que cresceu com as mestras que vestiam e despiam os atores do Teatro de Revista – ficava num cantinho a ver a mãe a preparar as roupas de grandes estrelas como Vasco Santana, Camilo de Oliveira, Hermínia Silva ou Laura Alves.
2.
A menina Lurdes nasceu no teatro, mas tornou-se rapidamente a melhor de todas as costureiras.
Com 12 anos distinguia os tecidos como se os conhecesse de sempre. Alinhava brocados e veludos e adequava-os com gosto a cada um dos personagens.
Aos 14, já era da casa – as outras costureiras, os atores e o próprio dono dos teatros, o mítico Vasco Morgado, tratava-a como se ali pertencesse, como se fosse uma mulher e não uma menina.
Aos 18 anos começou a trabalhar na Casa Anahory, no mais maravilhoso guarda-roupa que este país alguma teve ou terá.
E aos 25, já era ela a mandar.
Era já com ela que os realizadores desejavam falar.
E os encenadores.
E as pessoas comuns que desejavam ir impecáveis para uma festa.
Ou até para o Carnaval.
3.
Lurdes Matos tornou-se icónica, uma grande senhora, a mestra das mestras de guarda-roupa.
Referência para todos os grandes nomes do teatro e do cinema português.
As suas mãos transformavam em ouro todos os materiais, mas a sua intuição e cultura tornaram-se lendárias.
Sabia onde estava cada peça.
Sabia onde fora utilizada.
Sabia a que época correspondia cada traje, a que reinado pertencia cada tecido.
Bordava e cozia e imaginava, mas também era indispensável como consultora de roupa em quase todas as obras de época que se produziram.
4.
Lurdes Matos já morreu.
Não morreu agora, mas quando partiu não dei por isso.
Talvez pela proximidade do Natal de 2024, talvez tenha sido isso…
…ou então por não ter sido notícia, pode ter acontecido.
Recordo-a hoje.
Quase dois anos depois.
Estava na Casa do Artista.
Tinha 87 anos a menina que um dia nasceu nas traseiras do Parque Mayer.
A mestra de todas as mestras de guarda-roupa do cinema e do teatro português.
A guardiã dos vestidos e das épocas e de tantas estórias e atores que ajudou a serem eternos.
Morreu anónima.
Mas gigante.
A menina que aos 12 anos falava com os tecidos como se lhes pertencesse.
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