Morreu assim mais um bocadinho da nossa história

Na Rua Augusta, em Lisboa, existiu nos últimos 100 anos uma loja de café e chá. Bem, não era apenas uma loja, mas um bocadinho da nossa história, mas por ordem do tribunal foi fechada para sempre.

Morreu assim mais um bocadinho da nossa história

Na Rua Augusta, em Lisboa, existiu nos últimos 100 anos uma loja de café e chá. Bem, não era apenas uma loja, mas um bocadinho da nossa história, mas por ordem do tribunal foi fechada para sempre.


1.

Tenho saudades do que não vivi.

E ainda mais do tempo em que era criança e passeava com a minha mãe ou a avó Alice, mãe do meu pai.

Com a mãe visitava as lojas baratas de Campo de Ourique, pastelarias com miminhos que me faziam feliz quando eu era único.

Com Alice entrava nas lojas com história, sítios habitados por gente que cheirava bem e tinha na carteira notas que eu nunca vira.

2.

Tornei a passar por um desses lugares.

Quis levar um dos meus filhos, permitir-lhe que sentisse o aroma de café e chá e visse como era o charme discreto da burguesia de um outro tempo – o mobiliário requintado e antigo, as gavetas de madeiras onde estavam os grãos de café e as folhas de chá, as balanças antigas e os moinhos mecânicos onde o café era moído à frente dos nossos olhos.

A Casa Pereira da Conceição, na Rua Augusta, foi o lugar onde família abonadas compravam não apenas o café e o chá, mas também o chocolate da Suíça e o cacau de Angola.

3.

Os clientes eram tratados pelo nome – o senhor Adelino, filho de Joaquim, fundador da loja em 1933, tinha o nosso lote de café numa gaveta, o Lote da Família Osório que misturava grãos de vários lados, não me lembro das percentagens que combinavam o doce aroma brasileiro com a robustez angolana, sei que o Sr. Adelino misturava, pesava e moía.

Tudo à nossa frente.

4.

Havia porcelanas finas da China.

Bules e cafeteiras.

Quis entrar com o meu miúdo numa máquina do tempo, mostrar-lhe que a vida não começou com ele.

Bati com o nariz na porta.

A Casa Pereira da Conceição estava fechada.

Aparentemente, para sempre.

Procurei saber o que se passava e a notícia era, afinal, pública desde fevereiro: o Tribunal da Relação dera razão ao senhorio na sua pretensão de aumentar a renda de 331 euros para 10 mil euros.

Não chegaram a acordo e, por ordem judicial, a loja foi despejada.

Foi-se assim mais um bocadinho da nossa história.

O que raio podemos fazer para não nos esquecermos de quem somos?

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