1.
Gosto de ficar quando nado para fora de pé.
Gosto sempre de ficar, de permanecer nos lugares, de deixar a alma das cidades bater-me à porta, de provocar reações nas pessoas que encontro, nos velhos que são mapas mais completos do que qualquer um que possas comprar.
Gosto de ver novos países, mas não de os acumular como se fosse uma máquina de carimbos e ansiedade.
2.
Dizem-me que é a prova de não ser um turista.
Estes estão sempre de passagem.
E os turistas profissionais somam viagens como eu livros em que caminho pelas estórias, pelos tempos e lugares.
3.
Gostava de ir aqui ou ali, quem não?
Adorava perder-me nestas férias em Pequim.
Conhecer um encantador de cobras em Istambul.
Dançar o tango com uma avó de Buenos Aires.
Mergulhar na noite de Berlim.
Sentir o frio dos esquimós do Alasca.
Fazer o transiberiano, perguntar pelos segredos da Nigéria ou do Congo, o país em que nasceu o meu pai.
4.
Gostava de ir a esses e a milhares de outros lugares, mas sem pressa.
Como se tivesse todo o tempo do mundo.
Como se não tivesse de regressar, como se me pudesse transformar num outro…
…continuando a ser eu, o que é difícil de entender, até por mim próprio.
5.
Não quero acumular.
Viagens
Amores
Objetos
Tralha que não possa ser arrumada num saco de plástico em menos de cinco minutos.
Não é falta de ambição.
É excesso.
É desejar mais.
Conhecer menos, mas melhor.
Saber do que nos lugares é silêncio, lentidão, profundidade.
Não quero ser turista.
Quero caminhar nas estradas e desertos como se lhes pudesse pertencer.
Boa viagem para ti que me ouves ou lês.
Boa viagem, mesmo que não viajes.
Perde-te.
E encontra-te.
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