1.
Existe o talento.
Existe o trabalho.
Existe o conhecimento.
E existe a sabedoria de saber o que se deseja, mesmo que não se saiba ainda por onde ir ou o que fazer.
Há enormes talentos que ficam pelo caminho.
E artistas dos pés à cabeça que não têm ponta de talento.
2.
E depois há os que são escolhidos.
Pelas circunstâncias.
Por terem conhecido a pessoa certa.
Por alguém ter tropeçado numa canção, num quadro, numa ideia.
A história de Vhils é tudo isso.
Uma soma de acontecimentos que iluminou tudo o que Alexandre tinha para dizer.
3.
Nos tempos em que fugia da polícia, ainda não era Vhils.
É uma boa frase embora não seja inteiramente verdade – nos tempos em que fugia à polícia, Alexandre já assinava Vhils nos grafitis que deixava como impressão digital nas carruagens estacionadas na noite.
Ele e os amigos eram o alvo a abater – a administração da CP fez tudo para que fossem presos e condenados por vandalismo.
Bons tempos estes em que adolescentes tapavam a cara e vestiam roupas pretas para não se distinguirem dos mochos.
Grafitavam o que apanhavam e podiam.
E quanto mais arriscado fosse o grafiti mais estatuto lhes estava destinado.
4.
Vhils era diferente dos outros.
Tinha convicções, a certeza de que era forte o que desejava.
Candidatou-se às Belas Artes e foi rejeitado.
Dias terríveis que não o desmobilizaram.
Habituara-se à rejeição e a ser perseguido.
Acabou admitido na mítica Central Saint Martins, em Londres, escola de arte que formou Alexander Mc’Queen, John Galliano, Jarvis Cocker ou PJ Harvey.
5.
Aperfeiçoou a técnica e um dia, há quase vinte anos, no Cans Festival, um artista deu por ele.
Um artista que quis que o mundo conhecesse Vhils.
O artista que lhe roubou o anonimato chamava-se Bansky.
Faz pensar, não faz?
A história notável de um rapaz do Seixal que tapava a cara e fugia à polícia e é hoje um criador do mundo.
A quem o Presidente Marcelo pediu para lhe fazer o retrato.
O criador a quem a CP pagaria hoje uma fortuna para que ele grafitasse as carruagens de 1.ª Classe.
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