Nuno e Henrique

O país conhece-os desde que eram crianças. E nunca mais os perdeu de vista. São dois poderosos talentos, irmãos de sangue e a sua história foi feita de tragédia e aplausos.

Nuno e Henrique

O país conhece-os desde que eram crianças. E nunca mais os perdeu de vista. São dois poderosos talentos, irmãos de sangue e a sua história foi feita de tragédia e aplausos.


1.

Nunca escrevi sobre dois irmãos que me tocaram a infância.

Irmãos da minha idade, crianças como eu quando os vi pela primeira vez.

Quase parece uma ficção, mas recordo-os como se fosse hoje.

2.

Estou no quarto da minha avó, é sábado ou domingo e Júlio Isidro apresenta o Passeio dos Alegres, um dos programas da minha vida.

Com grande entusiasmo, Júlio antecipa que o país irá assistir a um momento histórico…

… dois irmãos talentosos, com 10 ou 11 anos, acabados de chegar de Londres, cantam e dançam como se respirassem, como se o seu destino fosse a Broadway ou Hollywood.

Nuno e Henrique cantaram, tocaram, dançaram e eram mesmo tudo aquilo.

O seu sucesso foi imediato.

Tornaram-se ícones de um tempo, a nossa esperança de ser como os outros, de ter estrelas como Fred Astaire, Liza Minelli, génios que um dia Andrew Lloyd Webber chamaria para os palcos do mundo.

3.

Nuno e Henrique foram crianças prodígio.

Mas continuam a ser grandes.
Um a compor e a tocar.
O outro a cantar, a dançar, a coreografar.

Parecem ter nascido no palco, o que é destino ou maldição, a pergunta que, em algum momento, todos os artistas fazem.

Podiam ter sido tudo, mas foram muito.
São muito e isto ainda não acabou.

4.

Não os conheço, mas conheço.

Acompanho-os desde criança.
Desde que éramos crianças.

Eles no palco e eu no quarto da avó que fazia soutiens e me preparava gemas de ovo para ficar forte e saudável.

Acompanhei-os nas entrevistas e até nas lágrimas com que me contaram, e ao país, da morte dos pais…

… primeiro a mãe, depois o pai.

Dois anos de diferença entre uma partida e a outra.
O Nuno e o Henrique tinham vinte anos.

E um espetáculo marcado no dia em que ela partiu.
E também no dia em que ele foi ter com ela.

Não o desmarcaram.

Não o podiam fazer, o palco é sagrado, o público tem de ser respeitado e as lágrimas ficam para depois.

Ficam para a solidão das suas quatro paredes.
A solidão de todos os artistas.

De todos os que vivem entre a vida e a ficção.
Entre a verdade dos factos e a verdade do palco.
Entre a grandiosidade e a miséria da alma humana.

O espetáculo tem sempre de continuar.

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