1.
Querido Nuno Markl,
Faz hoje dois meses que o país soube do teu AVC.
Nunca imaginei que pudesses ter uma coisa do género ou que corresses o risco de morrer… mesmo que fosse num dia longínquo.
Não nos conhecemos.
Quer dizer, conhecemo-nos sem nos conhecer como a maior parte da gente que circula nos corredores onde tudo parece acontecer sem que nada aconteça de relevante.
Para mim eras eterno.
Eras o “Homem que Mordeu o Cão”, que o mordia todos os dias.
Eras o gajo improvável, o Woody Allen português sem Nova Iorque, sem os filmes, os psicanalistas e a filha adotiva.
2.
Querido Nuno,
Estás melhor, mas atrapalhado.
É o que leio do que vais deixando para nós.
Escrevo-te para te dizer que tenho pensado em nós.
Não que sejamos parecidos ou comparáveis, mas tenho pensado.
Corremos imenso, escrevemos imenso, acreditamos que é possível dar aos outros o que vamos recebendo, partilhamos filmes, canções, sentimentos.
Mostramos um bocadinho da nossa sala de arrumos, dos que amamos, das reticências que temos, até dos idiotas com quem nos vamos cruzando.
Julgo que somos os dois otimistas ainda assim.
Do lado do bem, seja isso o que for.
3.
A tua doença, a tua mortalidade, as mensagens que leio dos que te seguem, permitiram-me pensar sobre o meu próprio fim.
Se estivesse no teu lugar – se me acontecesse estar numa cadeira de rodas a recuperar, passar o Natal a ouvir o ar condicionado do hospital e a ir à casa de banho ajudado por uma arrastadeira (como me aconteceu em Évora em plena pandemia) …
…se estivesse agora no teu lugar não disfarçaria um sorriso triste, um desalento.
4.
Passamos por aqui, damos o nosso melhor, somos sem dúvida privilegiados, mas quando faltamos, quando estamos mesmo atrapalhados, transformamo-nos por uns tempos numa nota de rodapé nas conversas quando não há mais nada para conversar.
As pessoas gostam muito de ti.
O país ama-te.
Muito mais do que a mim, é incomparável.
Mas vai dar ao mesmo.
Estamos por nossa conta.
Estás aí a sofrer.
És bem capaz de ter chorado o que não choravas desde o tempo em que as lágrimas eram curadas com o abraço das nossas mães.
Mas isso é uma abstração.
As pessoas consomem as estrelas ou figuras conhecidas como se fossem uma ficção, não são bem pessoas, são figuras que existem para nos fazer rir, chorar, pensar, mas pessoas não…
…e quando se transformam em pessoas como tu agora, frágil e verdadeiramente humano… deixam de interessar como antes ou, pior ainda, passam a ser protagonistas dos gurus de autoajuda ou das mensagens inócuas ou piedosas e que não têm significado algum.
5.
Vais morrer um dia, Nuno.
Novidade incrível para mim.
Como eu, uma outra novidade.
Sabemo-lo desde o primeiro dia em que nos lembramos, mas talvez nunca o tenhamos constatado como hoje.
Isso e o estarmos sozinhos.
Cada um de nós.
Conhecidos e menos conhecidos.
Talentosos e sem talento algum.
Anónimos e maluquinhos.
Todos sozinhos e por nossa conta.
Desculpa o postal.
Já te enviei tantos, mas nunca como este.
Aparentemente cínico ou melancólico.
Mas verdadeiro.
Há que fazer qualquer coisa para nos aproximarmos uns dos outros. Para sofrermos mesmo uns com os outros. Para sermos empáticos, para que estar aqui valha a pena.
Ouça o “Postal do Dia” em Apple Podcasts, Spotify e RTP Play.