1.
Para antecipar algumas criticas que me possas fazer, digo-te já que adorava ser rico.
E se o fosse, se tivesse massa para não me preocupar mais com ela durante a vida, faria o mesmo que hoje.
É verdade, é uma felicidade poder dizê-lo.
Teria uma casa melhor, viajaria mais, daria um conforto diferente aos meus filhos, um clichê.
Mas continuaria a escrever, a pensar, a fazer coisas.
2.
Ultrapassado o ponto prévio, são detestáveis alguns dos lugares dos ricos.
Os condomínios de luxo que os protegem das ameaças, que lhes oferecem privacidade, mas que parecem lugares assombrados pela solidão, lugares ausentes de gente real.
As portas dos condomínios, com seguranças mais ou menos ameaçadores, são vazios, artificiais, sem alma.
3.
Ou os bairros de milionários com os seus muros altos, os seus sistemas de segurança, o silêncio que os protege do tumulto, de uma realidade que não é a sua.
Saem das casas e convivem com pessoas como eles.
E como elas.
Em clubes privados, em buracos de golfe onde se trocam favores e negócios, em restaurantes de acesso restrito, em herdades protegidas por cães com pedigree que, também eles, não se dão com rafeiros da aldeia.
4.
Não estou a dizer-te que faria de uma maneira diferente.
Talvez comprasse casa num condomínio fechado.
Talvez comprasse uma moradia no Restelo, em Lisboa, ou na Foz, no Porto, com muros altos e piscina interior.
Talvez pagasse pelo silêncio e pela distância de uma realidade que é dura e nos atropela.
Mas o problema não sou eu.
É o que somos quando enriquecemos ou quando nascemos ricos.
Somos, com exceções, pessoas egoístas e desfasadas da vida como ela é.
Reduzimos o mundo ao nosso umbigo e ao destino da nossa família.
Tornamos a pobreza uma abstração e a miséria um espetáculo inevitável desde o princípio do mundo.
As desigualdades nunca deixam de ser teóricas.
O sofrimento das pessoas uma circunstância longínqua que não nos pertence.
Nunca são os milionários que mudam o mundo.
O mundo só se muda quando há fome de mudança.
Quem tem tudo não quer mudar nada.
Não é uma crítica, é a condição humana.
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