1.
Raquel Marinho é uma mulher que concretizou uma ideia impossível.
À partida seria uma proposta tão maluca, tão fora do tempo, tão utópica, que só um louco apostaria um euro no seu sucesso.
Quem se poderia lembrar de ganhar a vida com a poesia?
A divulgar poetas.
A produzir um podcast a partir de versos escolhidos por convidados.
2.
Raquel era uma premiada jornalista de televisão.
Mais de vinte anos a aparecer, a produzir documentários, reportagens, entrevistas.
Um dia fartou-se e mudou radicalmente de vida.
Passou-lhe pela cabeça que talvez merecesse a pena investir a sua vida no inconcebível, no inadmissível, no absurdo.
3.
Nasceu assim uma das marcas de maior sucesso na cultura portuguesa.
“O Poema Ensina a Cair”.
Toda a gente vai a sua casa gravar e escolher poesia.
Presidentes, ministros, cardeais, vedetas do show business, intelectuais, estrelas populares e sindicalistas.
A audiência cresceu e Raquel Marinho, que apareceu mais de vinte anos todos os dias na televisão, passou a ser mais reconhecida do que nunca por causa da poesia.
4.
Adoro quando as pessoas ousam o que não vem nos livros.
Fazem o que os gurus das verdades certas juram que não pode ser feito.
Adoro a coragem, a ousadia, o talento dos que inventam o que não foi inventado.
Raquel, mãe de uma filha que é, certamente, o seu melhor poema, fez tudo isso, é tudo isso.
E temos uma coisa em comum, descobri-o quando eu próprio me sentei na mesa da sua sala de jantar a gravar “O Poema Ensina a Cair”.
Descobri que os versos da nossa adolescência são os mesmos.
“Poema em Linha Reta”, de Álvaro de Campos.
Conheces?
Posso dizer?
“Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
“E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo…”
O poema depois continua mais um bocadinho.
Eu paro por aqui.
Hoje era isto.
Até amanhã
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