1.
O meu filho mais velho perguntou-me se ela estava bem e eu respondi-lhe que não sabia.
Não a vejo há muitos anos.
Trocamos mensagens monocórdicas pelo Natal ou pelo aniversário.
Almoçámos um par de vezes nestes últimos vinte anos.
Pedi-lhe desculpa por uma relação que não correu bem por minha exclusiva culpa.
2.
Não entro em detalhes, é de arqueologia de que te falo, de uma cidade perdida, como se existisse uma Constantinopla soterrada dentro do meu corpo.
Quero falar de ti, não de mim.
Desta coisa de sermos confrontados por alguma coisa que julgávamos já não existir…
…como um filho dizer-nos…
…lembro-me dela, pai.
3.
Somos tantos e tantas vidas.
Vamos semeando fins e novos princípios.
E a cidade vai-se tornando um pequeno cemitério de memórias – aquele restaurante, aquela esquina, aquela loja de discos, aquele bocadinho de rio.
As pessoas vão-nos morrendo.
E nós com elas.
Ou uma parte de nós.
Essa parte nunca mais poderá ser resgatada.
Mas sabes que acontece o contrário, que encontramos outras pessoas que nos mostram uma parte de nós que não conhecíamos.
4.
Por isso, digo sempre que os amores verdadeiros são eternos.
Podem correr bem e mal, mas quando nos mudam, quando nos revelam, são sempre eternos porque irrepetíveis.
No amor existe crueldade.
Misturada com outros sentimentos é certo, da mesma maneira que as cores se fundem e ganham uma outra tonalidade, um outro sentido.
Mas claro que existe.
A crueldade do ciúme.
A crueldade de nos tentarmos impor ao outro.
A crueldade do medo da perda.
A crueldade de magoarmos quem amamos mais do que aos outros.
O que distingue a qualidade das relações é então a mistura, a quantidade de compaixão, ternura, admiração e química.
É por isso que encontramos tantas e tantos que depois de se amarem, depois de uma vida em comum, depois de todas as ilusões, se agridem o mais que podem.
Abusaram da crueldade e esqueceram os outros ingredientes – um cocktail impossível de ser bebido.
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