Os auriculares matam mais do que nunca

Os números são alarmantes. A maioria dos que morrem atropelados por comboios ou pelo metro têm auriculares nos ouvidos. Mas a morte não é o único perigo.

Os auriculares matam mais do que nunca

Os números são alarmantes. A maioria dos que morrem atropelados por comboios ou pelo metro têm auriculares nos ouvidos. Mas a morte não é o único perigo.

1.

Não tem apenas a ver com as mortes a atravessar a rua.

Ou a linha ferroviária.

Ou até a Rede de Metro do Porto que é, ao contrário da de Lisboa, praticamente toda feita à superfície.

Não tem a ver apenas com as pessoas que morrem por não ouvirem as buzinas de emergência dos maquinistas ou o som da aproximação dos carros numa curva fechada.

Miúdos na maior parte dos casos, miúdos cheios de futuro que morrem atropelados por estarem com auscultadores…

…alheados.

Ou prisioneiros de um qualquer refrão.

2.

Números oficiais dizem-nos que bem mais de metade dos que foram colhidos pelas carruagens de comboio ou de metro, levavam auriculares nos ouvidos.

Bem mais de metade dos atropelados com menos de 40 anos, tinham auriculares nos ouvidos.

Bem mais de metade dos que morreram montados em trotinetas, traziam auriculares nos ouvidos.

3.

Mas não é apenas por isso.

Pela morte.

É por tudo o resto.

Pela vida também.

É pelo adormecimento.

Pela decisão de fecharem os ouvidos à realidade, de não escutarem o som das pessoas, de não interagirem, de perderem a cidade, o tremor do vento, o canto dos pássaros.

O silêncio.

4.

Vamos desaprendendo, perdendo a ligação.

Perdendo a possibilidade de estar abertos aos outros.

De conversar com quem nos surge.

Fechamo-nos.

Preferimos isso, fecharmo-nos.

Deixamos de ouvir os ecos e os grilos falantes que são as nossas máquinas privativas de fazer perguntas.

Não é apenas a morte.

O perigo de ficarmos feridos.

É também o horror de acreditar que nos bastamos, que isso é que é liberdade, que os outros ou o mundo são do tamanho do nosso umbigo.

E do que ouvimos nos nossos auriculares que, no fundo, nos protegem de tudo o que nos pode fazer maiores.

Que desperdício.

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