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1.
Faço hoje 55 anos.
É absurdo e até um pouco incompreensível a quantidade de tempo que passou sem que eu o percebesse.
Um sopro, é o que é.
Um sopro rápido que me faz ambicionar uma lentidão que não está ao nosso alcance… sobretudo se gostamos de aqui estar.
Só quando nos afundamos é que o tempo não parece passar, não está certo, deveria ser proibido o paradoxo.
2.
Já fui tantas coisas.
Bom e mau.
Anjo e vilão.
Sonhador e pragmático.
Já fui e deixei de ir à Missa.
Já mostrei a palma da mão a uma bruxa de feira, a minha carta astral a um astrólogo e o meu destino a cartomantes e lançadoras de búzios.
Já tive maus pensamentos.
E bons também, sonhos bonitos…
…e a ambição pequenina de ser amado, gostado, de ter sucesso.
Não preciso de muito dinheiro para ser feliz, não vou a festas, vernissages ou estreias de cinema ou teatro.
Ou a velórios e funerais a que não seja estritamente obrigatório comparecer.
3.
Já não tenho mãe e pai.
Avós, claro.
Amigos já partiram, alguns em vida.
Alguns que se tornaram outros ou então fui eu que me tornei num outro.
Tenho os filhos, vivo para eles.
Mas isso é o que a maioria faz, mesmo os monstros gostam de filhos e são capazes de morrer por eles.
É um amor que não nos distingue.
Sou boa pessoa, mas também disso não tenho absoluta certeza.
Gosto de estar sozinho, que não me chateiem.
Falo das saudades das vizinhas que nos batiam à porta com um raminho de salsa, mas detestaria que uma vizinha me batesse à porta com um raminho de salsa.
4.
Não choro muitas vezes.
Não celebro as vitórias ou lamento as derrotas.
Não me chateio com as críticas.
Acredito no futuro e em Deus.
Não sou tão à esquerda como muitos imaginam, mas seria incapaz de ser ou de me assumir de direita.
Admiro o meu pai, mas ainda mais a minha mãe.
Detesto a arrogância e a soberba.
Não tenho paciência para cínicos, ressentidos e gente má.
Detesto ver pessoas a ser maltratadas, pisadas, humilhadas.
5.
Chamo-me Luís.
Mas quando morrer, quando abrir os olhos num mergulho de abismo, espero ouvir
“Miguel”.
Ou então escutar no mais profundo silêncio uma outra língua em que nos possamos compreender.
55 anos.
Quantos me restam?
Mesmo que muitos, serão poucos.
Isto não é um comboio, mas um TGV.
Obrigado por estares aí.
Pelo abraço que senti e que devolvo.
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