1.
Quando morreu, há quase dez anos, era mais novo do que eu sou agora.
No dia em que fez cinquenta faltei ao aniversário – o Pedro estava chateado comigo… e com mil razões para isso.
Ainda assim convidou-me para a festa pois a data era redonda e ele não desejava estar de mal com quem gostava.
Chegara à conclusão de que a vida é demasiado ténue para se dar ao luxo de gastar tempo com o que não o fazia sorrir.
Foi uma conversa bonita, mas decidi não ir… expliquei-lhe a razão, coisas nossas.
2.
Pedro Rolo Duarte é uma das pessoas da minha vida.
Profissionalmente, uma das mais decisivas.
Devo-lhe um mar de oportunidades.
Teria 62 anos se aqui estivesse.
É engraçado, agora que o penso…
…disse-me algumas vezes, meio a brincar, que detestaria ser sexagenário, preferia ser jovem.
Uma brincadeira com um fundo de medo.
O pai, o grande António Rolo Duarte, partira antes dos sessenta e os seus frágeis corações juntavam-nos num destino que, na cabeça do Pedro, poderia ser comum.
3.
Talvez por isso tenha vivido intensamente e sempre comprometido com o jornalismo, a música, as viagens, os livros, a arquitetura, a moda, as paixões…
…comprometido com a vida.
Tudo nele era pulsão de fazer.
De se comprometer.
Acreditava que o jornalismo deveria procurar a verdade, mas também uma estética, um modo de olhar a partir do que era bem feito, um bom texto, uma excelente fotografia, uma paginação distintiva.
A procura da Beleza foi a batalha da sua vida, o Deus que perseguiu como se, nesse caminho, estivesse a revelação do que nos faz maiores.
4.
Não houve em Portugal ninguém que tivesse ocupado o seu lugar – olhamos à volta e não existe essa figura.
Alguém que pense os projetos a partir de uma estética e de uma ética.
Que invente revistas, jornais, programas ou livros como se estivesse em Nova Iorque, Londres ou Paris.
Quando o conheci, há mais de trinta anos, o contraste era absoluto entre os grandes jornalistas de um outro tempo e ele.
Não que o Pedro os respeitasse pouco, mas por acrescentar às madrugadas e ao compromisso total que os velhos mestres traziam no corpo…
…por a isso acrescentar novas manhãs, novos horizontes, novos desafios.
5.
Escrevi a palavra manhã com sentido metafórico, o Pedro detestava as manhãs.
A noite era o seu íntimo refúgio.
O lugar onde se sentia confortável.
Com amigos ou sozinho.
A perder-se numa dança ou a encontrar-se numa ideia que tudo redimisse.
Pedro Rolo Duarte é insubstituível.
Foi o último grande inventor de mundos novos no jornalismo português.
O ideólogo da Beleza.
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