1.
A avó Constança era a única que rezava.
Alentejana de Odemira com uma fé pouco acompanhada por filhos e netos.
Para ela, tudo bem.
Tinha as suas palavras mágicas e encontrava-se no silêncio com Deus.
O neto Paulo adorava-a e ficava a imaginar que raio de palavras dizia no seu murmúrio secreto.
2.
Paulo cresceu e Constança envelheceu.
No liceu era gozado por ser diferente.
Metido dentro de si, demasiado delicado, fugidio dos jogos de bola e das conversas de maledicência.
Tinha amigos, mas sofreu bastante por ser o que os outros não suportavam que fosse.
Sempre com livros na mão, sempre com conversas profundas, sempre perfeitinho e chato.
3.
Paulo tornou-se adulto.
Licenciou-se em Filosofia e desejava ser livre e dono de si próprio. Não depender de ninguém.
Candidatou-se a comissário de bordo.
Falava línguas, era inteligente, comunicador, luminoso.
Ganhava bem, viajava, fazia amigos em todo o lado.
4.
Num Verão, por curiosidade agnóstica, resolveu ir a um campo de férias dos jesuítas.
Gostou muito.
Começou a frequentar algumas iniciativas e, no ano seguinte, já fazia parte da organização do campo de jovens.
Não demorou muito tempo a desistir de voar.
Ninguém compreendeu tal disparate, o que lhe teria passado pela cabeça para abdicar de uma vida fantástica para tentar ser padre?
5.
Mas foi assim.
A avó Constança agradeceu todos os dias nas suas palavras mudas.
Foi estudar Teologia para Madrid e começou a fazer terapia para se livrar do peso que o bullyng lhe deixara de herança.
Juntou Teologia à Filosofia e seguiu para um mestrado, em Paris.
Fez os votos e tornou-se sacerdote, em 2014.
Prometeu pobreza, castidade e obediência.
Mais do que isso, prometeu um compromisso com uma força que não vem daqui, que não é daqui.
A avó Constança morreu nesse mesmo dia, acreditas nisto?
No final da cerimónia, poucos minutos depois do seu neto se ter entregue a Deus, deixou-se morrer com um terço nas mãos.
6.
Esta é a maravilhosa história do jesuíta que é, provavelmente, o mais popular padre da Companhia de Jesus em Portugal.
Paulo Duarte.
Neto de Constança.
Atual adjunto do diretor nacional da Rede Mundial de Oração do Papa Leão XIV.
Um homem que renasceu para se dedicar aos outros.
Aos mais humildes.
Aos que procuram saber mais.
Aos que preferem as perguntas às respostas.
À caridade, mas também à formação de quem possa mudar o mundo para melhor.
Conheci-o há muitos anos.
Tínhamos uma amiga comum.
Conversámos uma vez, antes de ser padre.
Quando Paulo estava encantado com o que a vida lhe propusera.
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