1.
Não me lembro da operação às amígdalas, mas lembro-me bem da caixa de gelados que a minha mãe me comprou.
O verdadeiro sabor da felicidade.
A operação correra bem e a mãe pediu ao Sr. Silva uma remessa de rajás para eu comer um por dia enquanto estivesse de cama a recuperar.
2.
Tinha sete anos.
E há também qualquer coisa de forte, de muito bonito no instante em que cheguei a casa e fui direto para a cama feita de
lavado, com fronhas novas e um pijaminha oferecido pela minha avó rica, a querida Alice que me seguia à distância.
Estava feliz pelo mimo, por ter o exclusivo do mimo.
A minha irmã tinha começado a andar e aquela convalescença terá certamente representado para mim o regresso da mãe perdida.
As massagens com creme no peito e nas costas.
As coisinhas boas que me dizia ao ouvido, como se eu fosse único, especial, o seu príncipe perfeito.
3.
Tenho isto presente porque a operação, afinal, deu para o torto.
Comi os gelados, mas comecei a piorar.
Foi-me diagnosticada uma febre reumática que me rebentou um ano de vida.
A semana de cama transformou-se em dez longos meses sem poder sair de casa.
Tinha um zumbido permanente nos ouvidos, como se uma multidão de abelhas me tivesse escolhido como casa.
4.
A mãe, com o acordo do Carlos, o meu padrasto, pôs-me uma televisão no quarto, um luxo das Arábias.
Vi o Mundial de 1978 naquela televisão e deitado na cama.
O meu gosto pelo futebol vem dali, estou mais do que certo disso.
A Argentina foi campeã do mundo e parece que estou a ver milhares de papelinhos a cair dos céus de Buenos Aires.
5.
Perdi um ano escolar.
O zumbido ficou-me durante mais tempo, não sei quanto.
Foi a primeira vez que senti o que a vida tem de mais previsível: a sua brutal e impiedosa imprevisibilidade.
A ideia de que não podemos dar nada como garantido.
Um dia estamos a festejar a roupinha lavada e o afeto de quem nos ama. E no outro dia, bem… no outro podemos estar quase a partir para um outro lado qualquer onde não há ninguém que nos amacie o lanche com um “Perna de Pau”.
6.
É por isso que sempre que os meus filhos têm febre eu apareço cheio de coisinhas boas.
Eles, os mais pequenos, não sabem que o faço também por mim e pela criança que ficou lá atrás numa casa que eles não imaginam como era.
Quando adoecem e lhes compro gelados e creme para o peito e as costas, sou eu também que torno à cama feita de lavado, ao pijaminha comprado numa loja fina e ao Mundial de 1978 numa televisão que existiu só para mim.
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