1.
Vejo Rita Blanco em baixo.
Talvez seja apenas uma impressão, talvez a vontade de fazer poesia onde apenas existe um cansaço normal, uma falta de paciência momentânea, um dia mau.
Escuto o que diz.
A falta que lhe faz a pessoa da sua vida.
A pessoa com quem já não vivia há muitos anos, mas com quem sempre esteve em cada instante.
2.
Há relações maravilhosas.
Que não dependem apenas de casamentos que resultam.
De camas que se partilham uma vida.
De festinhas de sexta-feira à noite com amigos que envelhecem connosco.
De conversas cansadas à volta dos filhos, das rotinas, das fugas românticas para alimentar o desejo mais difícil.
Há relações que perduram para lá da rotina e do sucesso.
Que ficam fortes com ou sem aliança.
3.
João Canijo foi a pessoa da sua vida.
Um génio da normalidade, da vida como ela é, um homem que compreendeu as mulheres tanto como elas próprias – nos seus filmes a Rita brilhava, era um monstro de representação por tanto se aproximar da verdade, por tanto ser verdade.
Rita é a melhor atriz portuguesa.
Desculpa o absoluto, o destempero infantil de escalonar o que não faz sentido, mas reforço…
…há algumas grandes atrizes em Portugal, mas Rita Blanco é a melhor de todas.
4.
É comédia e tragédia.
É pele e profundidade.
É sufoco e libertação.
É esperança e tangente à morte.
Quando entra em filmes horríveis os momentos em que a vemos salvam realizadores sem talento algum.
Rita é um assombro.
Está em baixo, mas alguém assim está muitas vezes em baixo quando não está em palco, quando não representa, quando precisa de ser atriz no seu próprio filme.
É o destino dos melhores.
Oferecem-nos a compreensão da vida, mas em troca Deus, ou alguém por ele, retira-lhes a possibilidade de se contentarem com pouco.
A felicidade é-lhes impossível, mas o preço é justo.
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