Um postal ao Luís que perdi

Quantas vezes temos a tentação de pensar sobre o que nos tornámos? Quantas vezes remoemos no que perdemos? Este postal é isso mesmo, um regresso ao passado e ao Luís que perdi.

Um postal ao Luís que perdi

Quantas vezes temos a tentação de pensar sobre o que nos tornámos? Quantas vezes remoemos no que perdemos? Este postal é isso mesmo, um regresso ao passado e ao Luís que perdi.

1.

Estive no meu liceu a falar no que me tornei.

Levava uns óculos de ver ao pé por causa das folhas com anotações, mas ainda assim procurei-me entre os miúdos que tinha à frente dos olhos.

Procurei o Luís e encontrei-o na última fila, perto da saída do auditório.

No final quis ir ter com ele, mas quatro alunas e uma professora travaram-me a possibilidade de reencontrar o rapaz que um dia perdi no caminho.

2.

Escrevo este postal para ele, para o que dele resta no que me tornei.

O Luís…

Um miúdo pobre, mas com vontade de descobrir livros, filmes, canções, pessoas.

Tímido, mas um pouco extravagante.

Terno, mas colérico.

Com ambição, mas prudente e silencioso.

Com coragem física, mas cheio de medo.

Apaixonado, mas solitário.

3.

O miúdo que eu era habitava um país só dele.

Com sonhos, pequenas mentiras piedosas, jogos malucos em que inventava ser o que não era.

Imaginei ser Paul Simon no Central Park.

Imaginei ser guarda-redes e depois treinador.

Imaginei ser realizador de cinema, ator e repórter de guerra.

Imaginei ser o preferido, o mais bonito, o mais desejado, o rapaz com quem todas as amigas adoravam estar e beijar.

Imaginei ser capaz de salvar a minha mãe e de amar o meu pai.

Imaginei poder ir jantar fora sem ter de pedir dinheiro emprestado à avó Joaquina.

4.

O Luís que fui, tenho absoluta certeza, estava na última fila do auditório do liceu da minha juventude.

Muito magro.

Muito branco.

Muito borbulhento.

Muito metido consigo.

Muito confiante de que a vida me acabaria por tratar bem.

O Luís que rezava o Pai Nosso, o Credo e a Ave Maria antes de adormecer, que chorava por antecipação com a morte da avó, que fazia campeonatos com os seus doze bonecos de borracha.

Orlando, Altinho, Fernando, Chico, Chico Sorte, Hugo, João, Roberto, Erlando, Beto, Norberto e Zeca.

Seis para um lado e seis para o outro, os melhores amigos que alguma vez tive.

5.

Luís, se me estás a ler, descontrai.

Estás a ouvir-me?

Um dia vais ser pai e encontrar o que, em algum momento, perdeste na lenta rapidez da vida.

Farás coisas que te orgulham e outras que nem tanto, mas dirás que valeu bem a pena ter vivido.

Ah, e será um dia especial quando reencontrares a tua juventude perdida.

Escreverás um postal ao fantasma que estará sentado na última fila de uma escola que foi a tua.

Que foi a nossa.

A minha escola.

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