1.
No dia em que jantei Pica no Chão na “Gruta”, o grande João Reis, ator e vimaranense, apostou que eu, depois daquela noite, nunca mais deixaria de olhar para Guimarães com amor.
Acertou.
Por isso, não é de estranhar que tenha festejado a vitória do Vitória.
A sua primeira Taça da Liga.
Apeteceu-me regressar à “selvagem” Gruta onde os homens só abraçam quando ficam convencidos de que o forasteiro respeita mesmo o que come.
2.
Adoro a cidade de Guimarães e os vimaranenses.
Adoro a Augusta da Adega dos Caquinhos, a única pessoa no mundo capaz de dizer onze asneiras em dez palavras… uma bujarda na sua boca é um verso perfeito, um poema sublime depois de aviarmos a primeira tigela de vinho verde.
Adoro o Toural, as ruas medievais, o Largo da Oliveira, o monte de que não me lembro o nome… aquele que tem um teleférico… mais o movimento nas praças e nos cafés… o Milenário, claro, onde velhos e novos se encontram todos os dias como se fossem para a missa.
Onde se leem jornais e se bebe como antes, sem tempo, sem pressa, sem receio de que das palavras possam nascer outras e outras.
Onde se bebe um cimbalino e se come uma queijada onde nasceu o Vitória quando o Milenário ainda não era um café, mas uma loja de chapéus para cavalheiros, a Chapelaria Macedo.
3.
Adoro o Vitória sendo eu benfiquista.
Fico fascinado com a maravilha de, naquela cidade ninguém, ou quase ninguém, ser de outro clube.
Não há benfiquistas, sportinguistas ou portistas.
Não há crianças que traiam a pátria.
Há Vitória, mais nada.
E não é Vitória de Guimarães.
É apenas Vitória.
O primeiro reduto da coragem de um país.
Ali é Vitória até morrer.
Nunca foram campeões, mas não há ninguém que tenha mais orgulho do que eles quando aquelas camisolas brancas entram em campo.
4.
Destinados a perder como o pequeno Afonso perante o poder de Castela, mas convictos de que o importante é o que não se diz, o que só eles e elas podem sentir.
É o trabalho e o sacrifício dos antepassados que trabalhavam a pele dos animais na zona dos couros, gente que rebentou com a saúde em tanques de granito ao ar livre, ao frio e gelo.
São os golos de Paulinho Cascavel, o sorriso do maravilhoso Neno, a classe do Fernando Meira.
Mas são também os quadros do José de Guimarães e um povo orgulhoso de si próprio.
Com coragem à prova de bala e… honra lhes seja feita… teimosos como só eles.
Adoro Guimarães.
Nem o toucinho do céu escapa quando lá estou.
Ali é para dar tudo.
Para ir até ao fim.
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