Vai-se andando

Há pessoas, muitas pessoas que vivem pela metade. Que olham para a vida como se todos os dias tudo piorasse. Temos que dar a volta a isto e começar a travar os profetas da desgraça.

Vai-se andando

Há pessoas, muitas pessoas que vivem pela metade. Que olham para a vida como se todos os dias tudo piorasse. Temos que dar a volta a isto e começar a travar os profetas da desgraça.


1.

É preciso energia para combater a imprevisibilidade.

Sou o primeiro a concordar com isso, não é nada fácil o ofício de viver, mas insistindo nos lugares comuns digo-te que é ainda mais difícil quando nos deixamos dominar por palavras que não nos ajudam.

Palavras que formam frases que nos prejudicam.

Verdade, há frases que de tanto serem ditas nos impedem de deixar passar o ar puro.

2.

Todos as conhecemos.

Quando perguntamos a alguém como está e nos respondem:

– Vai-se andando.

Ou quando sentenciam que

– Quem nasce para ser infeliz nunca se endireita

Ou quando fazem piada com o

– Enquanto o pau vai e vem, folgam as costas

Ou quando desistem com a absoluta certeza de que

– O que não tem remédio, remediado está.

Percebeste onde quero chegar.

São obstáculos ao otimismo.

Muros que erguemos contra a possibilidade de a vida nos sorrir.

3.

Há pessoas que não conseguem fugir à liturgia de que isto muda sempre para pior.

O pessimismo puxa pessimismo.

As más energias puxam más energias.

Os maus pensamentos puxam maus pensamentos.

É irritante.

Quase tanto como os saudosistas do “meu tempo é que era”.

Do éramos felizes e não sabíamos.

Do tempo que não volta para trás.

De só os bons morrerem cedo.

De a corda se quebrar sempre pelo lado mais fraco.

Do mais vale um pássaro na mão do que dois a voar.

Do quem não trabalha, não come.

Do cá se fazem, cá se pagam.

Do devagar se vai ao longe.

Do trabalhar faz calos ou do trabalhar para aquecer.

Do untar as mãos.

Do quem não chora não mama.

Do armar-se em carapau de corrida.

Do ir por lã e sair-se tosquiado.

Do atrás de mim virá quem de mim bom fará.

Stop!

É terrível.

Angustiante.

Pesado.

Vamos viver, porra.

Vamos exigir que nos digam outras coisas.

Que estão bem, não benzinho.

Vamos pedir um café, não um cafezinho.

Não um pãozinho.

Vamos chamar bons ventos.

Aplaudir o futuro, abraçar o presente.

Viver por inteiro.

Não pela metade.

Viver até ao fim, não estrebuchar em vida.

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