1.
Cecília era professora de História.
Está na reforma ou caminha para ela, não tenho a certeza.
Mas trabalhará até ao fim na memória do pai, naquilo que ele deixou, na força do seu exemplo, na urgência de não ser esquecido…
…ou de ser lembrado.
2.
Vasco é o pai de Cecília e teria 100 anos se fosse vivo.
Foi importante na minha vida.
E na de tantos que me ouvem, que me leem.
Ou que não me ouvem e não me leem.
Sim, é de Vasco Granja que te falo.
3.
Um homem que passou pela vida com uma desarmante delicadeza.
Não foi um bom aluno, detestava matemática, achava que os seus sonhos não eram feitos de números, mas de imagens, de histórias que fizessem pensar, chorar, rir ou compreender.
Em jovem desejava ser leitor para sempre, entrar nos livros e tornar-se personagem nos quadradinhos das crianças, nos romances de aventuras e em todas as estórias que apanhava em casa dos pais e depois nas bibliotecas onde os seus dias se gastavam muito depressa.
Aos 16 anos começou a trabalhar, o dinheiro não era muito.
Foi para os Armazéns do Chiado onde trabalhava com a seda das amostras que se ofereciam a clientes endinheiradas.
Tinha uma letra tão bonita que o transferiram para o departamento de publicidade onde desenhava anúncios para os jornais.
4.
Frequentava cafés políticos, no célebre Gelo conheceu Redol, Namora e Ramos Rosa – perigosos subversivos que o ajudaram a entrar em estórias fora dos livros.
A polícia política de Salazar prendeu-o duas vezes.
Torturaram-no, mas não conseguiram que perdesse a alegria de viver…
…uma bondade única e quase desafiadora.
5.
Quando se dá o 25 de Abril já Cecília é uma menina quase adolescente. E Vasco Granja, que hoje teria 100 anos, foi desafiado nesses dias de cravos para produzir meia dúzia de programas de animação.
Acabou por ficar 16 anos na RTP.
E tornou-se o símbolo maior do sonho de ser criança.
O seu mundo encantado ofereceu-nos, a mim e a milhares de miúdos, a possibilidade de ver desenhos animados que não imaginávamos que existissem.
Os soviéticos.
Mas também os americanos.
Foi ele que nos apresentou à Pantera Cor de Rosa, ao Tom e ao Jerry e ao Bugs Bunny.
Foi ele quem nos falou de possibilidades incríveis, de brincadeiras que podíamos fazer com plasticina, sombras, papel recortado ou marionetas.
Foi ele quem começou a dizer “Banda Desenhada”.
Antes dele dizia-se “Histórias de Quadradinhos”.
Morreu em 2009.
Há muitos anos.
Mas Cecília jamais se reformará da urgência de o lembrar.
O homem que nunca perdeu a delicadeza e nunca deixou que lhe matassem a infância.
O nosso Vasco Granja.
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