Abandonámo-los por serem pretos

Milhares de soldados foram deixados à sua sorte depois do 25 de Abril. Serviram as nossas Forças Armadas na Guerra Colonial, mas eram pretos e não tiveram lugar no avião de regresso.

Abandonámo-los por serem pretos

Milhares de soldados foram deixados à sua sorte depois do 25 de Abril. Serviram as nossas Forças Armadas na Guerra Colonial, mas eram pretos e não tiveram lugar no avião de regresso.

1.

Não desvalorizo e nunca desvalorizei a dor dos retornados.

O terem perdido tudo, o trabalho de uma vida, de algumas gerações, tudo o que eram.

É preciso ser fanático ou gélido para não nos comovermos com o sofrimento ou para não conseguirmos colocar-nos no lugar dos outros.

Também não desvalorizo os soldados que regressaram transtornados, amputados, perdidos na sua cabeça como se continuassem no mato a fugir do inferno.

E ainda menos desvalorizo os que morreram em combate. Os que não voltaram, os que não passaram do segundo ou terceiro capítulo de um romance por acabar.

2.

Mas há uma história por fazer.

Uma mais dramática ainda.

Que nos deveria envergonhar, mas de que não falamos, de que não sabemos…

…e se não sabemos é como se nunca tivesse acontecido, como se aquelas pessoas de que te vou falar não tivessem existido, não fossem portugueses ou nem sequer fossem seres humanos.

3.

Por serem pretos ficaram lá.

Na Guiné, em Angola e Moçambique.

Serviram nas nossas Forças Armadas, arriscaram a sua vida, foram enviados para as missões mais arriscadas, as que necessitaram de carne para canhão.

A guerra acabou, mas eles ficaram à porta do aeroporto.

Não puderam embarcar, deixaram-nos em terra, abandonados à sorte.

Muitos foram torturados e depois executados.

Os mais sortudos com tiros na cabeça, os outros agrilhoados e à vista das populações que lhes cuspiam, que os pontapeavam, que os apedrejavam.

Cerca de 4 mil morreram em nosso nome.

4.

Os Flechas em Angola e os Comandos Africanos na Guiné tinham sido essenciais nas nossas operações.

Grupos de elite só de negros.

Sentiam-se portugueses, mas os portugueses não os achavam dignos de o ser. Apenas os consideravam dignos de morrer.

Ficaram lá.

Como Zacarias Saiegh e António Jalibá.

O primeiro capitão, o segundo tenente, os dois comandos, os dois condecorados com a Cruz de Guerra.

Mas os dois pretos.

Zacarias esteve preso quatro anos e foi fuzilado no Natal de 1978.

António foi executado, com dezenas dos seus comandos, logo a seguir à independência.

Diz-se que se ouviu, antes da chacina, e perante o pelotão de fuzilamento, o grito dos comandos de António Jalibá: “Mama Sumae”.

Estamos prontos.

Foi isso que gritaram, estamos prontos.

Este sim, é o mais vergonhoso episódio da descolonização portuguesa.

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