1.
São raras as expressões de que gosto tanto…
…não sei explicar a razão do meu sorriso quando alguém diz que é dos “carecas que elas gostam mais”.
Há marchinhas acerca deste importantíssimo tópico.
Há sambas, mornas e fados vadios.
E não há apenas uma justificação, há várias.
2.
Os carecas têm mais charme.
São mais inteligentes.
Mais altos e fortes.
Mais viris, claro.
Oferecem segurança, liderança, conforto.
Nunca estão despenteados.
E os adereços ficam-lhes a matar: óculos, chapéus e o que se possa imaginar.
3.
Não acho que seja verdade.
Quer dizer, nunca pensei no assunto, não faço a mais pequena ideia pois não sou careca…
…pelo menos é o que a minha filha Benedita me jura:
“Pai, não há ninguém que tenha um cabelo tão bonito como tu”
As crianças têm sempre razão porque falam de dentro, do que realmente sentem.
Por isso, desconheço se os carecas são aquilo tudo ou se são o contrário.
Como o cheque careca que nos embaraça.
Ou os pneus gastos e prontos a derrapar.
Ou a descoberta da careca, o encontro do ponto frágil.
Ou até a definição do étimo que vem do grego antigo… aparentemente careca terá nascido da palavra calhau, o que assusta e arruma o assunto numa prateleira a que não desejamos regressar.
4.
Gostava de ter cabelo.
E de adormecer por uma vez sem me lembrar de um grito que ainda hoje me entope a cabeça sem cabelo.
Estava à porta de um hotel no Porto quando uma loira pôs a cabeça de fora de um carro em andamento e gritou.
“Ó careca, és mesmo feio”
Apeteceu-me chorar, mas condescendente e falso como Judas, sorri e acenei-lhe como se me tivesse dito o quanto me amava.
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