1.
Este postal é para ti, Gonçalo.
Vale de muito pouco, quase nada, mas sinto o dever de escrever de ti.
E desculpa-me o tratamento informal, o “tu” que talvez seja excessivo tendo em conta o que fizeste, o que tens sido, o que provaste ser.
2.
Não fizeste ainda 50 anos.
Nunca foste ministro ou secretário de Estado.
Tens dois miúdos, sei que estão a crescer bem e o quanto falam do pai com orgulho – o que mais podemos ambicionar na nossa intimidade?
Mas não é a intimidade que desejo tocar, até por respeito à tua capacidade de, mesmo em tempo de vacas gordas, preservares a família.
Quase aposto ser uma marca dos teus pais, professores em Leiria, figuras da cidade…
…quase aposto que, nos minutos mais difíceis, nas longas madrugadas em que não tinhas soluções para apresentar aos que não podiam dormir por não terem teto, aos que te interpelavam de lágrimas nos olhos…
…quase aposto que tiveste vontade de ligar ao teu pai, sempre ponderado e presente até ao derradeiro dia, o da sua partida, o de uma morte que sentiste como a morte de uma parte de ti.
3.
Meu querido Gonçalo Lopes.
Caro presidente da Câmara de Leiria…
Escrevo este postal para falar em nome de muitos e muitos portugueses.
Queremos dizer-te uma palavra, apenas uma.
Obrigado.
Obrigado, Gonçalo.
4.
Por nos fazeres acreditar que vale a pena acreditar no caminho quando este é feito de genuína preocupação com os outros.
A tua voz, mesmo quando falaste com o coração, mesmo entre o caos e os gritos, foi escutada.
A tua incrível capacidade de seres próximo, mantendo a distância fundamental para quem temo dever de decidir.
A tua extraordinária coragem por nunca prometeres nada que não pudesses cumprir – neste tempo fico impressionado quando surge alguém que não mascara a verdade com mentiras ou meias-verdades.
A tua dolorosa paciência para aguentares a presença de governantes e notáveis que não faziam “puto” de ideia do que ali estavam a fazer.
5.
Não sei o que acontecerá no futuro.
No teu futuro também.
Nenhum de nós conhece os planos que nos transcendem.
Mas Gonçalo, independentemente do que vier a suceder, passaste a ser uma bússola de decência.
És uma pessoa grande.
És esperança.
Um soldado contra as trevas de um tempo em que, infelizmente, os ventos e as chuvas são apenas parte do problema.
A maldade, cinismo e falta de escrúpulos de tantos, só pode ser combatida com pessoas como tu.
Um abraço e até breve.
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