1.
A história foi-me contada por Manuel Sobrinho Simões.
Que lhe foi contada por um amigo muito íntimo.
Foi esse amigo que viu a história que te quero contar.
2.
Jerónimo de Sousa estava no Porto e faltavam uns dias para se iniciar a sua última campanha enquanto secretário-geral do Partido Comunista.
A cena aconteceu num restaurante da Invicta à hora de almoço.
Jerónimo sentara-se na companhia de duas enormes figuras da cidade e do país. Um e o outro bastante burgueses, um e o outro alinhados historicamente no apoio ao PCP.
O almoço correu muito bem.
Os três entenderam-se como era esperado, trocaram argumentos e prometeram repetir a dose depois das eleições.
Imagino que tenham comido um bom cabrito ou uma cabidela, não sei.
Imagino um tinto e tudo o que disse até aqui, tudo o que escrevi, tem uma dose de inveja boa – adoraria ter estado com os três.
3.
Sei, não é preciso recordares-me, que ainda não contei nada de especial.
Duas figuras maiores, que não digo o nome, embora possam tentar adivinhar, e Jerónimo de Sousa.
Após a sobremesa, um deles chamou o empregado e pediu-lhe o especialíssimo favor de trazer o melhor whisky velho que lá tivesse guardado.
Afinal, aquela reunião merecia o melhor rótulo do melhor néctar possível.
Eles mereciam.
4.
Veio a garrafa e Jerónimo tapou o copo com a mão.
“Então Jerónimo, não podes beber, não gostas?”
Foi então que o comunista, tranquilamente, respondeu que nunca provara um whisky tão velho e tão especial. Não tinha nenhuma dúvida de que iria gostar, mas se não se importassem, preferia pedir um copo de Licor Beirão.
As duas figuras fizeram silêncio.
E Jerónimo quebrou o gelo com um brinde à luta de classes e à vida.
Ouça o “Postal do Dia” em Apple Podcasts, Spotify e RTP Play.