1.
Maria Judite de Carvalho morreu há quase trinta anos, mas está mais viva hoje do que nos dias em que passou por aqui.
Os seus livros – sobretudo os seus contos –, habitados por mulheres que vegetavam numa espécie de vida, num vazio de solidão, de não-sentido, de invisibilidade…
…sim, os seus livros imortalizaram-na e ofereceram-nos novas chaves de entendimento sobre o Estado Novo, mas também sobre Mariana, Dora Rosário, George, Luísa e tantas outras condenadas a um destino de subalternidade, de sombra, de anonimato.
2.
Maria Judite é, com Agustina, a escritora mais extraordinária do século XX português.
E a mais desconhecida, ainda hoje.
As mulheres dos seus livros eram também, de alguma forma, ela própria.
Judite viu morrer os seus pais e o seu irmão.
Ficou órfã no início da adolescência.
Criada por tias, condenada à tristeza.
3.
Apaixonou-se depois por um homem bonito e talentoso.
Urbano Tavares Rodrigues, um príncipe comunista com quem casou, um dia saberei porquê, numa cerimónia católica na Igreja de São José, em Lisboa.
Adoraram-se.
Veneraram-se.
Urbano desejava que Judite escrevesse mais, que aceitasse dar entrevistas, que aparecesse.
Chegou a esmurrar um crítico por ter dito que a sua mulher deveria ir cozer meias e deixar-se da literatura.
4.
Exilaram-se em fuga da PIDE.
E após o 25 de Abril, Urbano tornou-se icónico e Judite nunca deixou a sombra.
Limitava-se a escrever e a pintar.
Aplaudia o marido.
E vivia o destino a que na sua cabeça estava condenada.
O mesmo das que inventara nas páginas dos livros.
Morreu em 1998, com 76 anos.
Urbano viveu muito mais tempo.
Ganhou várias distinções e aplausos em vida, mas Judite ultrapassou-o na morte.
Como Simone Beavouir com Jean Paul Sartre.
A história ofereceu a cada uma a imortalidade.
E a cada um o reconhecimento em vida e o descanso eterno.
As coisas nunca são lineares, pois não?
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