1.
Acreditamos quase sempre que o tempo em que vivemos é o mais original ou o mais aterrorizador.
É uma tendência nossa, faz sentido e ainda bem…
…uma maneira certamente de valorizar a nossa passagem por aqui.
Uma das coisas que se proclamam como inquestionável verdade é a de sermos tristes testemunhas de uma sociedade que mitifica, como nunca antes, as estrelas do desporto, da música ou de qualquer indústria de consumo de massas.
Um sistema de estrelas onde, quase tudo, é construído nessa premissa.
Não é verdade.
Houve tempos bem piores.
Com histerismos que desafiaram qualquer lógica possível de ser hoje imaginada… por muito que estejamos habituados a imaginar.
2.
Não acreditas?
Deixa-me então recordar que há 100 anos, fez agora no final de agosto, o mundo foi informado da morte do ator Rodolfo Valentino.
Tinha 31 anos, era filho de um pai italiano e de uma mãe francesa, e em cinco anos transformara-se no primeiro grande ídolo da história do cinema.
Chegara à América com 18 ou 19 anos.
Lavou pratos e dançou o tango em clubes de Nova Iorque.
Era magnético e latino.
Olhava as mulheres e os homens nos olhos e alguém de Hollywood acreditou que não havia ninguém assim no cinema mudo.
Tinha razão.
Rodolfo incendiou o mundo de desejo e pecado.
Tornou-se um mito em tempo recorde e a sua vida de aventureiro ajudou à festa – casou duas vezes sem consumar as relações, teve casos, mas naquela altura, influentes da noite juraram que era homossexual.
3.
Morreu num dia de insuportável calor em Nova Iorque.
Uma úlcera perfurada e um funeral com milhares de pessoas a gritar por ele, a partirem montras e a provocarem motins um pouco por todo o lado.
Muitas mulheres… e também alguns homens… suicidaram-se nesse trágico amanhecer.
Em frente ao hospital onde morreu, várias pessoas tentaram pôr fim à vida… algumas com sucesso.
Em Londres, LA, Nova Iorque, Tóquio e Roma foram vários os jovens que não quiseram viver um único dia mais – deixaram cartas escritas e estrebucharam com comprimidos e veneno de ratos ou estricnina.
Foram encontrados nos seus quartos rodeados de fotografias de Valentino.
4.
A sua última película estreou após a tragédia.
Foi o maior sucesso da história do cinema até então e, ainda hoje, o filme em que mais pessoas desmaiaram durante as sessões – “O filho do Sheik” não podia, aliás, ser exibido sem a presença de uma ambulância de primeiros socorros.
Quem fala de Cristiano Ronaldo, Brad Pitt, Taylor Swift ou até de Mr. Beast, não tem a noção de que todos somados não dariam um Rodolfo Valentino.
Há um século, num dia escaldante de verão, morreu com 31 anos o primeiro “macho latino”.
Os seus olhos de “carneiro mal morto” rebentaram com a escala da decência e do medo do inferno.
Ele era para muitas e muitos o paraíso.
Talvez por isso, vários foram ter com ele no dia do juízo final.
Ouça o “Postal do Dia” em Apple Podcasts, Spotify e RTP Play.