1.
Tony Carreira é uma enorme figura.
Construiu uma carreira que é mais importante do que a música, é partilha com os mais vulneráveis, com os que partiram para fora morrendo um bocadinho por dentro, é do povo, um dos poucos que trabalha todos os dias para não atraiçoar essa relação.
Mas hoje não quero falar de Tony, mas do seu filho mais velho.
2.
O país viveu, e eu também, a tragédia de Sara.
Uma morte que rebentou alicerces da família Carreira, dos pais, dos irmãos e amigos mais íntimos.
Compreensivelmente fomos esquecendo o que estava à volta, tudo foi atenuado perante a imensidão de um assombro, mas Mickael prosseguiu e é justo que se afirme a sua capacidade para seguir uma estrada própria.
Pelo que faz.
Pelo que diz.
Pela maneira como existe num mundo com pés de barro.
Recordo a sua passagem pelo “The Voice”.
A generosidade com os concorrentes, a humildade perante a vida, a total ausência de vedetismo.
Confesso que me impressionou.
3.
E quando o oiço em entrevistas, há sempre qualquer coisa que fica.
Quando fala dos pais, da ausência do pai António na sua infância, o Tony que era amado por pessoas que ele não conhecia, mas que raramente parava em casa quando moravam em Paris.
Mickael que nasceu nas margens da grande cidade, mas que nunca foi completamente aceite pelos colegas das escolas por onde passou.
Era bonito,
Era alto.
Mas era filho de portugueses, um francês de segunda para muitos dos adolescentes do liceu que frequentou.
4.
Passou tempos difíceis.
Escondeu-se e revoltou-se.
Mas as coisas foram seguindo e um dia, tinha ele 15 anos, o pai decidiu fazer-lhe a vontade e regressar a Portugal.
Não sem antes lhe fazer uma pergunta: queres cantar no meu espetáculo de despedida de Paris, cantar comigo no Olympia?
E foi assim.
Mickael apresentou-se ao mundo no mítico Olympia, mas nem sequer deu pelas palmas – só lhe apetecia chorar por ter compreendido tudo, por afinal de contas o seu pai ser um prolongamento de si… ou o contrário.
Gosto da família Carreira.
É gente que abraça.
Que trata bem os outros.
Que diz bom-dia, quando dizemos bom-dia.
Abraço forte, Mickael.
E desculpa o “Postal” ter ido sem aviso.
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