Bruno começou a roubar aos seis anos e aos 11 já desviava carros da polícia. Passou quase toda a vida em Custóias e quando morreu, aos 39 anos, foi celebrado no bairro da Pasteleira.
1.
Aos seis anos, Bruno já assaltava.
E aos 11 tornou-se uma estrela do bairro da Pasteleira, o mais duro lugar da droga no Porto – não por servir de correio aos traficantes, mas por ter começado a roubar carros.
Bruno ainda não chegara aos 16 e já conseguira um feito único: enganar a polícia e fugir no carro patrulha. Uma perseguição que culminou com a sua detenção e internamento numa casa de correção.
Quando voltou ao bairro foi recebido com fogo de artifício e deram-lhe logo duas alcunhas: o “Rei da Pasteleira” e o “Siga”, pela habilidade com que despistava os que o tentavam apanhar.
2.
Bruno não tinha relação com o pai, mas imitou-o na vida de crime.
Quanto à mãe, muito pobre e com vários filhos, era afetivo e dizia-lhe coisas bonitas quando não estava preso.
Sim, é verdade.
“O Rei da Pasteleira” nunca se tentou regenerar.
Saiu da casa de correção e entrou pela primeira vez em Custóias, prisão de gente grande, de homicidas, traficantes e criminosos que conheceu, um por um.
Não é um sítio perfeito para quem se deseja salvar e Bruno não se salvou.
3.
Ao longo da sua vida nunca esteve um ano seguido em liberdade.
Entrava, saía e tornava a entrar.
Começou a ser aplaudido quando regressava à Pasteleira e quando regressava a Custóias.
Viciou-se nas palmas e nunca traiu a expetativa de uns e de outros.
Formou gangs para assaltar lojas, farmácias, supermercados.
Gamava “camones” nas noites da Ribeira.
E nas semanas de liberdade ia comer a bons sítios com o dinheiro vivo dos assaltos.
4.
Começou a consumir, só para não fazer a desfeita aos seus amigos do bairro.
Diz-se que não pagava pelo consumo, era da casa, um ídolo.
Foi-se desgraçando, até fisicamente.
Era magrinho e ágil, mas arranjava sempre forma de magicar o próximo assalto, a próxima golpada.
Era o David Coperfield da Pasteleira e todos acreditavam, até as crianças do bairro, que um dia cumpriria o sonho da sua vida: roubar um avião.
A malta ria-se, mas Bruno levava aquilo a sério. Chegou a desenhar planos, para desviar grandes máquinas, em papéis rabiscados em restaurantes.
5.
Bruno morreu em meados de 2024.
Tinha 39 anos.
E trago-o aqui por dele me ter falado um amigo da Judiciária…
… ter-me recordado o Bruno, o “King da Pasteleira” que esteve quase toda a sua vida dentro de uma prisão sem nunca ter matado ou traficado.
Um ladrão à antiga.
Talvez o último ladrão de um outro tempo.
Que no seu funeral, no Cemitério do Lordelo, teve muitas centenas de pessoas que o aplaudiram pela última vez.
O “Rei da Pasteleira”, o “Siga” partiu sem cumprir o sonho do avião.
Morreu com uma overdose três ou quatro meses depois de ter sido libertado pela última vez.
Em Custóias, a sua cela foi, finalmente ocupada por outro.
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