1.
No verão de 1977, no tempo da outra senhora, mas já em democracia, o país esteve à beira do abismo.
O episódio não vem nos livros de História e os protagonistas ficaram na sombra, mas é impossível prever as consequências se, naqueles dias quentes, um problema gravíssimo não tivesse sido resolvido.
2.
Vou contar-te.
Chegara nesse ano a Portugal uma outra revolução.
Uma revolução que falava português do Brasil, usava minissaia e se chamava Gabriela.
A jovem Sónia Braga incendiou o país com o seu modo de ser. Não estávamos habituados à sensualidade e às novelas com pessoas tão parecidas à vida real.
“Gabriela, Cravo e Canela” obrigou o país a parar no princípio de todas as noites.
As sessões parlamentares fechavam a tempo de os deputados poderem sair e chegar a casa.
Os cafés enchiam-se de gente por não existirem televisões na maioria das casas.
E no dia seguinte todos discutiam o destino de Gabriela e Nacib.
Os pobres chamavam os ricos de “coronéis”.
E os ricos gabavam o modo como os pobres viviam no Brasil.
3.
Em 1977, os gabinetes políticos e financeiros estavam discretamente ocupados pelo FMI – o governo de Mário Soares pedira a intervenção estrangeira porque corríamos o risco sério de não ter dinheiro para pagar ordenados aos funcionários públicos.
Estávamos falidos.
É nesse cenário que o pior poderia ter acontecido.
E foi nesse cenário que uma jovem talentosa salvou a situação.
4.
A “jovem” ainda está vida e de excelente saúde.
Chama-se Maria Celeste Hagatong e tinha 25 anos quando alguém do governo ou do grupo parlamentar do partido mais votado lhe entrou esbaforido pelo gabinete.
Maria Celeste representava Portugal no Conselho Europeu (ainda antes da entrada na CEE) e era diretora dos serviços financeiros da Assembleia.
O homem entrou sem bater e proclamou a necessidade de libertar o dinheiro para uma emergência.
Que emergência, perguntou Celeste.
Se os funcionários públicos podiam não receber no final desse mês, como queria ele libertar dinheiro para gastos de certeza mais supérfluos.
O político respondeu-lhe que não era supérfluo, que era o próprio Soares quem lhe implorava.
Mas o que é, desejou saber a já desesperada Maria Celeste.
Foi então que a explicação surgiu.
Minha senhora, as cassetes da Gabriela estão retidas no aeroporto. E se a RTP não paga o que deve à Globo não há episódio hoje – receio que o país expluda!
Nessa noite o país parou, mas para ver a novela.
E Maria Celeste Hagatong, brilhante e pragmática, entendeu aí que há ventos que não podem ser parados com as mãos.
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