O jornal Médio Tejo noticia o lançamento, já este sábado, na biblioteca municipal Gustavo Pinto Lopes, de um “Roteiro de Arte Mural do Concelho de Torres Novas”. O roteiro, da autoria da historiadora de arte Marta Nunes Ferreira, reúne registos dos mais importantes murais de arte urbana do concelho de Torres Novas, abrangendo o período que vai de 1974 até aos nossos dias.
O lançamento deste roteiro vai reunir na biblioteca municipal torrejana um lote relevante de autores de murais e de especialistas em conservação e restauro de arte urbana.
Ele dá-nos um bom incentivo a que marquemos na agenda uma próxima incursão pela terra de Maria Lamas onde a minha infância parava para comprar figos secos, tal como fazia desvio em Abrantes para reabastecimento da palha mais doce.
Torres Novas já me tinha surpreendido com o belo painel de azulejos do ceramista João Branco, instalado no Largo do Paço, em memória do antigo Teatro Virgínia.
Numa visita mais recente, deslumbrei-me com os cavalos em desfilada numa outra parede da cidade. A magnífica cavalgada que nos surpreende numa das entradas de Torres Novas é uma vibrante homenagem à antiga Escola Prática de Cavalaria, nascida da criatividade do açoriano Pantónio, um artista urbano que tem espalhado talento em muros de muitas cidades do mundo.
Sempre sou tocado pela poeira que os cavalos levantam no meu olhar quando passam por mim na vertigem dos murais.
Certa vez, no restaurante da antiga pousada de Miranda do Douro, esqueci-me do pequeno almoço e deixei que o pensamento fosse a galope nos cavalos de Júlio Resende.
Se não sabeis do que falo, procurai versos antigos de Sophia inspirados nos “Painéis que Resende desenhou para o monumento que
devia ser construído em Sagres”. Lá estão os cavalos, “suas crinas de vento / seus colares de espuma / seus gritos / seus perigos / seus abismos de fogo”.
Mas estes cavalos em tropel desatado numa parede de Torres Novas, estes cavalos libertando-se das selas, crinas ao vento, estes cavalos que hão-de constar, não o duvido, do anunciado “Roteiro de Arte Mural” do concelho ganham aos meus olhos uma especial condição, são os meus cavalos à solta de Ary na voz de Tordo, são os meus cavalos de várias cores com selas feitas de restos de nuvem, tal como Reinaldo Ferreira os imaginou. Porque correm na parede de uma rua que não é uma rua qualquer. Correm numa parede da rua do Bom Amor.
Texto e programa de Fernando Alves
