Ruben Amorim

Tenho saudades de um treinador. Das conferências de imprensa onde nos oferecia confiança e um sorriso insubstituível. Neste tempo de maus pensamentos, tenho saudades de Ruben Amorim.

Ruben Amorim

Tenho saudades de um treinador. Das conferências de imprensa onde nos oferecia confiança e um sorriso insubstituível. Neste tempo de maus pensamentos, tenho saudades de Ruben Amorim.

1.

Espero não ser mal interpretado.

Quando se escreve sobre personagens do mundo da bola há sempre quem faça por dividir as águas ou encontrar ardilosas estratégias ou dinheiro a untar mãos gananciosas.

Sou benfiquista e sinto-me bem entre sportinguistas, portistas, bracarenses ou vimaranenses – tratam-me maravilhosamente em todo o lado onde vou, não sei se me devo orgulhar disso, mas envaideço-me à mesma.

2.

Espero não ser mal interpretado, comecei por te dizer.

É muito simples: tenho saudades de Ruben Amorim.

Saudades das conferências de imprensa, do seu sorriso franco, da maneira como descomplicava as coisas, de um bafo de futuro e juventude que me permitia o luxo da esperança em dias melhores.

Não te sei explicar melhor do que isto.

3.

Ruben tem 40 ou 41 anos.

É um tipo discreto, desapareceu das nossas vistas quando se fez ao deserto após ser despedido pela primeira vez.

Não tem redes sociais.

Não dá entrevistas.

Vemo-lo aqui ou ali em fotografias dispersas …

…com amigos, com a mulher num centro comercial ou a beber um café num lugar qualquer.

Imagino que esteja por cá.

Que vá buscar os filhos à escola.

Que veja futebol quando a casa está a dormir.

Sei que continua a aparecer sorridente nas fotografias, mas não chega para resolver as saudades que tenho do homem.

4.

Ruben Amorim revolucionou o Sporting, mas fez mais do que isso: reconciliou muitos de nós com o futebol.

Oferecia-nos confiança quando falava e sorria.

Os sportinguistas amavam-no, os benfiquistas desejavam-no, os portistas temiam-no.

E nada o afetava.

Parecia leve, sem pressão, sem peso negativo, sem maledicências, sem o fatalismo próprio de tantos de nós, portugueses e paradoxais.

Tenho saudades do Ruben como se fosse família.

Não me importava que fosse treinador de um clube rival, desde que o pudesse ver e ouvir nas conferências de imprensa mais a sua confiança, boa energia e sorriso que convocava bons espíritos.

Não te esqueças de nós, meu amigo.

Ouça o “Postal do Dia” em Apple Podcasts, Spotify e RTP Play.