1.
Acredito em Deus.
Acredito noutras formas de vida num Universo que me dizem infinito.
E acredito que é muito mais o que está por descobrir do que aquilo que foi descoberto.
Na verdade, no que acredito menos é em nós, no ser humano, neste vício de precisarmos de provar que somos melhores, que somos mais fortes, que podemos usar a força, que nos estamos a lixar para as consequências do que fazemos.
2.
Ocorreu-me por estes dias com inesperada força uma pergunta…
Uma questão simples, até simplória.
E se estivermos mesmo completamente sozinhos?
3.
E se não existir nada para lá do que é biológico?
E se Deus existir apenas fruto da nossa necessidade que ele exista?
E se não existir qualquer tipo de vida, inteligente ou não, em qualquer dos intermináveis sistemas solares?
E se não existir nada para lá do silêncio de abismo que é a marca do espaço que conhecemos?
E se nada existir no que não vemos?
E se estivermos irremediavelmente por nossa conta?
E se morrer for o esquecimento absoluto, um pouco como quando uma médica me anestesiou para fazer um exame de rotina.
Disse-me assim: esta é a droga do Michael Jackson. Em dois ou três segundos adormecerá profundamente.
E eu adormeci profundamente.
Depois acordei sem me lembrar de coisa alguma, um buraco negro.
4.
Tenho pensado no tema.
E em Deus, presença constante que me responsabiliza e inquieta.
Como ser positivo se no horizonte apenas existir o vazio?
Talvez seja mais fácil do que parece.
Se tal fosse assim, se tal for assim, somos um milagre, uma soma de circunstâncias irrepetível.
Seríamos únicos.
Seríamos a única inteligência do universo.
E pararíamos de jogar às escondidas, travaríamos esta loucura de perder tanto tempo a procurar o que não existe.
A procurar dentro dos armários e a gritar “bu” para assustar a nossa própria sombra.
Inventaríamos outros jogos.
Procuraríamos ser melhores.
Sobreviver de outra maneira.
5.
Que premissas estas.
Ingénuas.
E mentirosas.
Se soubéssemos que estávamos sozinhos, os lobos mais fortes degolariam mais depressa os mais frágeis.
Seríamos nós, mas sem uma ideia moral que, apesar de tudo, ainda nos vai salvando.
Sem culpa.
Sem medo do que nos poderia acontecer ao espírito quando se libertasse do corpo.
Mas olha, não quero abalar-te.
Porque tenho a prova de que não estamos sozinhos.
Lembras-te do que disse há bocadinho?
“Seríamos a única inteligência no Universo”.
Demasiado ridículo para poder ser verdadeiro, não achas?
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