1.
A rádio passou a ser parte da minha vida.
Um orgulho caminhar pelos corredores da rádio pública, ouvir as conversas, imaginar as pessoas que não cheguei a conhecer, comover-me com pequenas coisas, sinais que me obrigam a pensar e a escrever.
Quero partilhar a estória mais bonita entre todas as que conheci nos corredores da Antena 1.
A estória de um homem que já morreu, mas que continua vivo.
É mesmo assim, ouviste ou leste bem, há um homem que morreu o ano passado e que, misteriosamente se mantém alerta,
vigilante e sempre preocupado com o destino da rádio e dos músicos portugueses.
2.
Conto-te.
Não conheci Armando Carvalheda, apenas o seu nome e um pouco do seu importante percurso.
Quando fui diretor do Rádio Clube Português quis fazer um Viva a Música que fizesse concorrência ao original, ao que Armando inventara e tornara património imaterial do país.
Já cá estava a fazer o Postal do Dia quando morreu. Foi uma surpresa pois achava que estava em forma, era um homem ainda novo, 73 anos. E continuava ativo na rádio.
Não havia músico algum que recusasse um convite seu.
Armando era a garantia de que a rádio nunca deixaria de ser rádio… que a vida continuaria a ser vida dentro do estúdio, com gente a tocar ao vivo… como nos tempos de ouro.
3.
É este Armando, o homem que inventou a primeira Rádio Pirata desmantelada pela PIDE, um dos fundadores do Pirilampo Mágico…
… é este Armando Carvalheda que continua vivo.
Ainda agora o vi antes de entrar no estúdio.
Porque quando a vejo, vejo-o a ele.
Ana Sofia, a sua filha, grande profissional da rádio, enorme produtora, que nestes corredores, decidiu continuar a vida dele, a luta dele, o desígnio dele.
4.
Agora é ela quem telefona aos músicos.
É ela quem organiza as suas vindas, as canções ao vivo, a vida dentro da rádio.
Ana Sofia Carvalheda que trabalhava com o pai, que era o seu primeiro e último suporte, a Ana que entrou para a rádio há mais de trinta anos, mas que hoje é a vida em dobro.
É o futuro, mas também o passado.
É ela, mas também ele.
É a vontade de rir e o peso do silêncio.
Ana Sofia, não te preocupes.
Eu não o conheci, mas sinto-o sempre que por ti passo.
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