Imagem de A médica prodígio, amada e admirada por todos, não merecia ter morrido aos 36 anos

A médica prodígio, amada e admirada por todos, não merecia ter morrido aos 36 anos

A história de uma médica a quem a administração do Hospital Fernando Fonseca deu o seu nome à Unidade de Técnicas de Gastroenterologia. Um feito notável pois a Dra. Catarina Graça Rodrigues tinha 36 anos quando morreu.

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A médica prodígio, amada e admirada por todos, não merecia ter morrido aos 36 anos

A história de uma médica a quem a administração do Hospital Fernando Fonseca deu o seu nome à Unidade de Técnicas de Gastroenterologia. Um feito notável pois a Dra. Catarina Graça Rodrigues tinha 36 anos quando morreu.

1.

Tinha 36 anos quando morreu.

E menos de dois meses antes estava bem, tudo lhe corria bem.

Uma carreira extraordinária e precoce como médica, um celebrado percurso académico onde foi a aluna com melhor média do curso, dois filhos muito pequeninos que a faziam chorar em todas as noites em que por ela esperavam, uma paixão por salvar pessoas, por ser útil, por viver todos os dias como se a felicidade fosse possível enquanto aqui estava…

… que a felicidade talvez fosse fazer o melhor possível em cada dia, em cada combate, em cada doente por salvar.

A Dra. Catarina Graça Rodrigues era jovem.

E vivia para os outros.

2.

A irmã Marta, advogada bem-sucedida, administradora da Novabase, e sua melhor amiga, dizia-lhe muitas vezes para fazer também medicina nos privados.

Não era justo que ganhasse tão pouco trabalhando tanto.

E a Catarina, um bocadinho envergonhada, respondia-lhe que no privado se salvavam menos pessoas.

Ela parecia não ter tempo a perder.

Permaneceu no SNS e tornou-se uma das mais reconhecidas especialistas na técnica de ecoendoscopia. Diferenciou-se no estudo do intestino e na especialidade de Gastroenterologia, tornou-se em pouco tempo uma referência no Hospital Fernando da Fonseca, na Amadora.

3.

Podia ter escolhido todos os hospitais.

Podia ter saído para o estrangeiro, convites não lhe faltaram.

Podia, mas preferiu ir para um hospital de campanha. Um hospital frequentado por gente vulnerável, por pessoas que maioritariamente vivem em bairros sociais ou degradados.

Foi a essas pessoas que se dedicou.

Salvar vidas, empenhar-se, encaminhar os que não têm caminho, comprometer-se com um destino.

A Catarina era amada pelos colegas.

E parecia inesgotável.

Fazia diagnósticos, atravessava-se pelos doentes, dava o ombro aos colegas que precisavam de desabafar e quando chegava a casa tinha energia e amor para fazer dos seus dois filhos quase bebés os mais felizes bebés do mundo.

4.

De um dia para o outro, num maio qualquer, foi-lhe diagnosticado um linfoma fulminante.

Morreu menos de dois meses depois.

Os seus filhos tinham dois e quatro anos.

Os que com ela privaram não tiveram palavras para definir a terrivelmente injusta partida de uma pessoa que vivera para fazer o bem.

A administração do Hospital Fernando Fonseca homenageou-a dando o seu nome à Unidade de Técnicas de Gastroenterologia por tudo o que ela fez em tão pouco tempo.

5.

Passaram já quase quatro anos.

Os filhos têm oito e seis anos e eu conheci o mais novo, o Lourenço.

Este postal é para ti, querido Lourenço.

Que orgulho deves ter na tua mãe, não podias ter tido melhor sorte.

Um dia dar-me-ás razão.

Texto e programa de Luís Osório


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