A bebé portuguesa que o mundo deveria conhecer

Ainda não sabe andar, mas é o símbolo de um mundo que não sabemos quando regressa e se um dia regressará. Um mundo mais tolerante, mais humano e com mais empatia.

A bebé portuguesa que o mundo deveria conhecer

Ainda não sabe andar, mas é o símbolo de um mundo que não sabemos quando regressa e se um dia regressará. Um mundo mais tolerante, mais humano e com mais empatia.

1.

Sofia tem seis meses.

Nasceu em Portimão, tem a nacionalidade portuguesa e merecia ser transformada num símbolo.

Um símbolo de paz e de tolerância.

Como as coisas estão arrisca-se a ser o contrário, a ver o país do pai acusá-lo de traidor ou o da mãe acusá-la de coisas ainda piores.

Espero que não, que Sofia possa crescer em Portugal, ter amigos, aprender a ler e a escrever, encontrar o seu destino e ser um exemplo.

2.

O pai é ucraniano.

E a mãe russa.

Apaixonaram-se antes da invasão.

Antes das mortes.

Da raiva e do ódio.

Tinham de fugir.

De encontrar um lugar onde pudessem ser família sem que lhes apontassem o dedo.

Se ficassem na Ucrânia, ela teria problemas, seria atacada, apedrejada.

Se ficassem na Rússia, seria ele a ser atacado, despejado de toda a identidade.

Se ficassem num lado ou no outro, a bebé Sofia seria apontada como fruto de uma relação proibida, de um pai e de uma mãe que traíram as suas pátrias.

3.

Por isso, fugiram para o mais longe que conseguiram.

Chegaram a Portugal, em 2023.

Apaixonaram-se pelo país.

Juraram ficar, fazer tudo para ficar.

Ela engravidou e ele, no primeiro ou segundo dia, registou a recém-nascida como portuguesa.

A sua redenção.

4.

Batizaram-na, Sofia.

Tem seis meses e da sua boca ainda não saiu uma única palavra.

Que dela possam nascer palavras novas, fortes, fulgurantes.

Palavras de paz.

De perdão.

Palavras que salvem, que nos salvem deste cheiro a peste que paira nas nuvens.

Que Portugal a possa reconhecer como um símbolo.

Que a possamos proteger.

Que possa ser amor, que o mundo possa conhecer a nossa Sofia, filha de uma relação de amor num tempo de cólera.

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