1.
As mães têm de ser chatas, não podem ser de outra forma, seria contra a sua natureza, contra as regras da biologia e de tudo o resto.
Ser mãe é mesmo isso.
Olhar para o prato do filho para o encher quando está a meio.
Discutir por causa da sopa, dos verdes, da fruta.
Das saídas à noite, dos namorados ou namoradas, da inspeção às roupas quando põem a chave à porta, se fumam, se consomem ou se beberam.
2.
Ser mãe é ser chata, muito chata.
Telefonar dez vezes por dia.
Dar opinião, influenciar o curso das coisas, preocupar-se para lá da conta, perguntar dos exames, das notas, da entrada para a faculdade, do trabalho, da promoção, das entrevistas de emprego.
E se temos a sorte de a ver muito velhota, continuará a sê-lo e a tratar os filhos, mesmo quase velhos, como se fossem crianças de jardim-escola.
Muito chatas as mães.
E quando são avós confundem as coisas.
Pressionam filhas e filhos.
Explicam mil vezes das fraldas, dos arrotos, das roupas, dos cremes, do que se está a fazer errado.
3.
Muito, muito chatas.
Seguem as carreiras dos filhos, veem os jogos se forem desportistas, gritam quando caem, acordam com pesadelos como se estivessem a cair da cama durante a madrugada.
Mas um dia…
…um dia, os filhos chorarão com a memória do que lhes falta.
Porque nunca mais ninguém olhará para o nosso prato.
Nunca mais ninguém estará pronto para o encher quando estiver a meio.
Nunca mais ninguém nos corrigirá a postura.
Ou se preocupará quando saímos para a noite…
…ou para o dia.
Nunca mais ninguém nos amará assim.
Nos sufocará de beijos mesmo quando não queremos ser beijados.
Nunca mais deixaremos de associar o cheiro do VIC ao que nos falta, à sua presença, ao tempo em que estávamos doentes e ela nos velava e nos sentíamos protegidos.
4.
Se a tua mãe é muito chata é porque está tudo bem.
Garanto-te que seria bem pior se ela não o fosse.
Porque as mães são mesmo isso – um cordão umbilical que só na sua morte será quebrado.
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