1.
Na Parreirinha de Alfama continua a cantar-se o fado, mas já não podemos comer a vitela e as iscas feitas por Argentina Santos.
Mas não devo apressar o Postal, preciso de te contar sobre ela, não posso partir do princípio de que a conheces.
Argentina Santos não foi apenas uma fadista, para muitos era a última voz do fado castiço, do fado verdadeiramente do bairro, da autenticidade, também da faca e do alguidar e do destino.
2.
Morreu antes do Natal de 2019.
Tinha 95 anos e era a dona da Parreirinha que transformou na catedral do fado puro.
Ninguém cantava como ela.
Juntava as mãos como se rezasse e não se ouvia uma mosca.
Era uma missa, uma oração profana.
3.
Passou por muito até ser icónica ou então foi icónica por ter tido tantas vidas numa única.
Trabalhou numa peixaria.
Foi lavadeira.
Depois cozinheira.
Não sabia ler nem escrever quando casou pela primeira vez.
Deixou-se ir por paixão e ânsia de ter uma vida sua.
Casou com um homem que não demorou a fechá-la em quatro paredes.
Proibiu-a de cantar pois ser fadista era coisa de prostituta, ela devia comer e calar, não sair da cozinha.
4.
Mas Argentina Santos só pode ter sido protegida por um Deus que gostava de fado.
O marido morreu subitamente e ela ficou livre.
Começou então a cantar e a ser falada.
E depois ficou com a Parreirinha e aprendeu a ler e a escrever e nunca mais teve parança.
5.
Tornou-se uma estrela.
Cantou no estrangeiro, mas era na sua cozinha que se sentia em casa…
…com os seus clientes e os aplausos da noite.
Pousava o avental, juntava as mãos e cantava.
6.
Já não a consigo encontrar na Parreirinha.
A cozinha é outra, remodelada, branquinha, asseada.
Continua a cantar-se bem o fado.
E todas as noites alguém a recorda e lhe agradece.
Como se ela continuasse presente e pudesse, a qualquer momento, sair da cozinha, tirar o avental, e tornar a cantar que “amar não é pecado”.
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