1.
Em duas ou três ocasiões, não mais, quando a conversa se dispôs, confessei a amigos da razão de ter abandonado o jornalismo.
Não a ideia de jornalismo, mas a ocupação de lugares de direção, de liderança de projetos.
Tive um ou outro convite, um deles relevante, para regressar à profissão que mais amei entre todas as que tive.
2.
Vou confessar-te a primeira razão, diria que a mais forte para ter deixado de ponderar ser manda-chuva do que quer que seja – não sei o que o futuro me reserva, o futuro tem sempre ideias próprias, mas nenhum dos seus planos venceu a reticência que continua tão viva como no primeiro dia.
Acreditas que foi a morte da minha mãe?
Era diretor-geral do Rádio Clube Português e diretor de informação do Grupo de rádios da Media Capital.
Dirigia o trabalho de bem mais de cem pessoas.
E na morte da minha mãe o cemitério estava cheio.
3.
Recebi muitos abraços.
Beijos.
Promessas de que estariam sempre para mim.
Que podia sempre contar com todos.
Que a minha dor era a sua.
Não te iludas.
Não estou a confessar que acreditei no que me juravam, que me comovi para lá da boa educação, do agradecimento por terem ido.
4.
Queria simplesmente estar sozinho.
Com as pessoas que a amavam.
Que com ela se cruzaram.
Desejava estar com os meus filhos, o André e o Miguel, mais a minha irmã, os vizinhos do bairro, o meu pai que ainda estava vivo…
…desejava todo aquele silêncio para mim.
5.
Mas o cemitério estava cheio.
De gente que não a conhecia.
De gente que apenas estava ali por eu ser diretor, porque é mesmo assim…
…não levei a mal, agradeci, mas espero que compreendas o que digo.
Estamos por nossa conta.
Cheios de gente à volta quando as vacas são gordas.
Sem gente à volta quando são esquálidas.
Eis uma constatação que nunca me fez sofrer.
Sou pragmático e solitário.
Nasci inteirado das regras do jogo, mas naquela manhã de frio o impacto foi enorme.
Cada frase, cada abraço, beijo, estímulo, cada desconhecido que parou em frente ao seu caixão, foi um murro.
6.
Quando saí da rádio mantive alguns amigos.
A maioria deixei de ver, mas eles estiveram lá, no momento mais íntimo da minha vida, a despedida de uma mãe.
Teria sido menos íntimo se me tivessem entrado no quarto e me vissem nu.
Talvez seja uma coisa minha, mas é o que sinto no mais profundo lugar que habito.
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