No funeral da minha mãe

No Lar da Misericórdia de Miranda do Douro, uma mulher acorda todas as madrugadas para ouvir a voz de José Candeias. Chama-se Cremilde e nasceu para ser uma criança grande e eterna.

No funeral da minha mãe

No Lar da Misericórdia de Miranda do Douro, uma mulher acorda todas as madrugadas para ouvir a voz de José Candeias. Chama-se Cremilde e nasceu para ser uma criança grande e eterna.

1.

Em duas ou três ocasiões, não mais, quando a conversa se dispôs, confessei a amigos da razão de ter abandonado o jornalismo.

Não a ideia de jornalismo, mas a ocupação de lugares de direção, de liderança de projetos.

Tive um ou outro convite, um deles relevante, para regressar à profissão que mais amei entre todas as que tive.

2.

Vou confessar-te a primeira razão, diria que a mais forte para ter deixado de ponderar ser manda-chuva do que quer que seja – não sei o que o futuro me reserva, o futuro tem sempre ideias próprias, mas nenhum dos seus planos venceu a reticência que continua tão viva como no primeiro dia.

Acreditas que foi a morte da minha mãe?

Era diretor-geral do Rádio Clube Português e diretor de informação do Grupo de rádios da Media Capital.

Dirigia o trabalho de bem mais de cem pessoas.

E na morte da minha mãe o cemitério estava cheio.

3.

Recebi muitos abraços.

Beijos.

Promessas de que estariam sempre para mim.

Que podia sempre contar com todos.

Que a minha dor era a sua.

Não te iludas.

Não estou a confessar que acreditei no que me juravam, que me comovi para lá da boa educação, do agradecimento por terem ido.

4.

Queria simplesmente estar sozinho.

Com as pessoas que a amavam.

Que com ela se cruzaram.

Desejava estar com os meus filhos, o André e o Miguel, mais a minha irmã, os vizinhos do bairro, o meu pai que ainda estava vivo…

…desejava todo aquele silêncio para mim.

5.

Mas o cemitério estava cheio.

De gente que não a conhecia.

De gente que apenas estava ali por eu ser diretor, porque é mesmo assim…

…não levei a mal, agradeci, mas espero que compreendas o que digo.

Estamos por nossa conta.

Cheios de gente à volta quando as vacas são gordas.

Sem gente à volta quando são esquálidas.

Eis uma constatação que nunca me fez sofrer.

Sou pragmático e solitário.

Nasci inteirado das regras do jogo, mas naquela manhã de frio o impacto foi enorme.

Cada frase, cada abraço, beijo, estímulo, cada desconhecido que parou em frente ao seu caixão, foi um murro.

6.

Quando saí da rádio mantive alguns amigos.

A maioria deixei de ver, mas eles estiveram lá, no momento mais íntimo da minha vida, a despedida de uma mãe.

Teria sido menos íntimo se me tivessem entrado no quarto e me vissem nu.

Talvez seja uma coisa minha, mas é o que sinto no mais profundo lugar que habito.

Ouça o “Postal do Dia” em Apple Podcasts, Spotify e RTP Play.