1.
A avó Alice, mãe do meu pai, era afilhada de um dos mais esquecidos heróis republicanos.
Américo de Oliveira tratava-a como se fosse sua legítima filha – o seu amigo de Alcobaça, o meu bisavô Sabino, emigrara para o antigo Congo Belga e confiou-lhe a sua pequena Alice.
2.
Os tempos idealistas da 1ª República tinham passado e o vento tornara-se agreste para vários daqueles revolucionários.
Américo foi um dos mais desiludidos.
Viu o Estado Novo tomar o poder e assistiu ao nascimento político de Salazar sem nunca perdeu a energia que o alimentava…
…a energia que alimentou a avó Alice que se sentava ao seu colo e lhe mexia nas barbas longas enquanto escutava estórias que depois me reproduziu nas nossas noites de conversa.
3.
Américo chamava Bebé à Alice…
…que brincava na casa do padrinho com uma outra criança igualmente fascinada pelas barbas do carbonário que, em 1908, fundara o jornal “O Republicano” com Raul Proença, figura grande do pensamento político do século XX e homem forte da Seara Nova.
Mas falava de uma outra criança que proclamou o desejo de também ser seu afilhado.
O pequeno era filho de um grande amigo de Américo e chamava-se Mário…
Mário Soares.
Que sempre que me encontrava perguntava por ela.
“Como está a Bebé?”
4.
Américo de Oliveira talvez tenha sido a pessoa mais importante na formação da avó Alice, mulher extraordinariamente bonita de quem tenho tantas saudades.
Na sala, à esquerda do sofá onde se sentava todas as noites, existia um quadro do padrinho.
Uma pintura que a avó quis que passasse para mim, a herança que trouxe nos dias em que dela nos despedimos.
A imagem de Américo de Oliveira, herói esquecido da República, intelectual, pintor formado nas Belas Artes, nascido em 1884 e falecido em 1954, quatro anos antes de Humberto Delgado ter virado o país ao contrário.
Quando olho para o quadro sinto-a próxima.
E também afilhado daquelas barbas domadoras de sonhos e coragem.
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