A casa de Lisboa de Luís Montenegro

Luís Montenegro poderia ter escolhido a sua casa de Lisboa em qualquer uma das mais de 2500 ruas da capital. Mas foi escolher precisamente a que lhe permite fazer olhinhos ao destino.

A casa de Lisboa de Luís Montenegro

Luís Montenegro poderia ter escolhido a sua casa de Lisboa em qualquer uma das mais de 2500 ruas da capital. Mas foi escolher precisamente a que lhe permite fazer olhinhos ao destino.

 1.

As pessoas comentam na rua as avenças do primeiro-ministro, a sua paixão pelo golfe, o nome da empresa que já não é sua, as incompatibilidades, ingenuidades, táticas e estratégias, timings e candidatos, filhos e obras…

… as pessoas comentam tudo, mas nada do que tem sido comentado ou acontecido, mesmo a queda do governo ou a marcação de eleições, alcança os calcanhares do que realmente me fez pensar.

2.

Luís Montenegro surpreendeu-me nos primeiros meses em São Bento – a mim e a muitos como eu, à esquerda e à direita.

Parecia estar à vontade, dominar a comunicação e executar com método as prioridades do governo. Cheguei a criticá-lo pela

obsessão que parecia ter com Cavaco Silva – qual a razão para necessitar de uma proximidade com alguém que remete para o passado e não tem qualquer empatia?

Pensava que a obsessão era instrumental, mas estava errado. Ou então é um caso de megalomania, o desejo de ver reconhecido pelo povo um providencialismo que seria ridículo – e não creio que Montenegro o seja.

3.

O que me espantou então?

Muito simples, espantou-me saber que a casa de Luís Montenegro em Lisboa, o tal duplex que está em obras, fica na Travessa do Possolo a uns metros da casa de Aníbal Cavaco Silva.

Espantou-me que o homem, tendo 2500 ruas em Lisboa para escolher uma casa, arrendasse ou comprasse uma na mesma de Cavaco – como se explica isto?

Foi um mero acaso, um impressionante bambúrrio do destino?

Ou Montenegro quis mesmo marcar uma posição e tornar simbólica a sua ascensão ao poder? Torná-la ungida pelos poderes deste mundo e dos outros?

4.

É possível que estejas indignado a ouvir-me.

Que me perguntes o que tem isso de relevante?

Que me insultes por estar a lançar areia para os olhos sobre uma coisa sem qualquer importância.

Mas eu digo-te: claro que tem importância.

Oferece a possibilidade de conhecermos Luís Montenegro muito melhor, de o definirmos com mais clareza.

Escolher precisamente a rua de Cavaco Silva entre quase três mil disponíveis é tudo menos uma coincidência.

Não concordas comigo?

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