1.
Tenho andado para escrever este postal.
Procurei informações, crónicas sobre eles e elas, reportagens que tivessem saído aqui ou ali, mas nada.
Umas coisinhas, notícias desirmanadas, muito pouco.
2.
O que existe sobre os vigilantes e as empresas de segurança privada é o mal.
O que dá para o torto.
Os tipos infiltrados que gostam de arriar e dividem a sua vida entre a noite e o ginásio onde fermentam músculos e hormonas.
Pagam os justos pelos pecadores porque ser vigilante não é isso – mais de 90 por cento dos 40 mil que existem em Portugal, vestem a farda da empresa e ficam nas portarias, nos armazéns, nos centros comerciais de madrugada, nos hospitais, nas fábricas, nos estaleiros, nos centros logísticos, em edifícios, condomínios, buracos.
Sozinhos.
12 horas sem ouvirem ninguém, sem verem alguém.
Minuto a minuto, dia atrás de dia, por vezes uma vida de trabalho assim.
Difícil encontrar uma profissão com tanta gente esgotada, desesperada de um silêncio e de uma monotonia que vai remoendo, corroendo, rebentando ilusões e vidas.
Invisíveis.
3.
E quando há assaltos estão lá sozinhos.
Desprotegidos, tantas vezes.
Mal pagos, quase sempre.
Mal-amados, na maioria dos casos.
Com a vida lixada.
Amores que não são possíveis de alimentar, relações desfeitas pela ausência e cansaço, filhos que não conseguem ver, só ao fim-de-semana, mas isso é quando não são requisitados ou quando conseguem levantar-se do sofá onde lhes apetece estar até ser outra vez tempo de regressar a uma solidão que lhes está colada à pele.
Quero dedicar-lhes este postal.
Dizer-lhes que é digno o que fazem.
Que não estão sozinhos.
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